Vida do casal: como fica a intimidade de pais que têm filho com câncer?

Durante este Outubro Rosa, é importante ter um olhar generoso também para os cuidadores. Lelah Monteiro aborda como fica a relação de um casal com um filho com câncer

0
52

Hoje nosso texto é para responder a muitos casais que estão em  momentos que sequer conseguem elaborar este questionamento durante os cuidados de um filho com câncer; mas sempre há a necessidade desta orientação.

A vida afetiva e sexual fortalece elos importantes entre o casal e sua ausência pode comprometer ainda mais o bem-estar emocional de quem já passa por uma situação bastante delicada.

Temos várias possibilidades para discutirmos juntos:

Constatado que o filho, fruto de muito amor do casal, está com câncer, o desespero toma conta dos pais.  Inegável que todo o seu amor e cuidado são transferidos para aquele filho querido que padece de uma grave patologia que exige cuidado, carinho e muito amor.

Mas a vida, não se resume somente a esse cuidado.  Os pais devem se cuidar, continuarem a trabalhar para sustento da família, alimentarem-se e parecerem, diante do filho, o menos acabrunhados possível pela doença que sempre assusta.

O tratamento do filho com câncer, feito da melhor forma possível, consome muita energia dos pais e eles não querem nada que não seja a melhora de seu querido filho.

Tudo isto é natural e aceitável.

Porém, a vida do casal, por vezes, não se encerra somente naquele filho.  Há por vezes outros filhos, outras responsabilidades e a própria existência do casal como núcleo da família.

A família, é formada em torno do sexo e dele é que advém a cria e é o liame da criação em nossa sociedade.

Um filho adoecido evidentemente diminui a libido e desgasta ainda mais ao casal.

Entretanto, é necessário, a par de todo o cuidado a este filho, cuidar ainda mais do casal e de seus laços para que todo o stress do tratamento não destruam o prazer da companhia dos cônjuges.

É muito comum em casos assim que casais que, não conseguindo segurar o stress dos problemas, separem-se, mesmo que ainda exista o amor e o desejo entre eles.

Por muitas vezes, um deles, mesmo que extremamente preocupado pelo filho doente, tenha desejo e seja rechaçado pelo outro que vê naquele desejo uma desconsideração e desconcentração pelo momento presente.  É como se dissesse ou até diz: “não dá para pensar nisto com nosso filho assim” e ainda, conseguem desta forma lançar uma dose de culpa no outro cônjuge que se recolhe magoado e machucado.  Não raras vezes daí surge um relação extraconjugal que mina o casamento e o desfaz.

É corriqueiro também que um dos pais, na sua maioria, homens, não aguente tanta pressão e simplesmente parta, apesar que nem sempre assim ocorre e há muitos pais homens que cuidam do filho doente mesmo na ausência da mãe.

Há muitíssimos casos de casais que se mantém juntos, mas passam a ter um caso fraterno.  Alguns dos cônjuges reclama, mas se acomoda enquanto outros afirmam que, apesar de tudo, gostariam de ter uma vida de casal.

Lembrem-se: um casal é a semente de uma família que se forma em torno do sexo.  Portanto, para manutenção dessa família, desejo, sexo e relacionamento afetivo devem haver enquanto existir o casal.  Problemas, infelizmente, sempre haverá.  Preocupações, sempre estão presentes.  Um filho doente, com câncer e um penoso tratamento, é realmente um problema forte, mas não pode ser mais forte que o liame e o link do casal.

Só existe uma solução: trazer a libido e o desejo de volta a esse casal.

Assim, em todos os casos, o que faremos é trazer a libido de volta. Isto mesmo: dentro da rotina de cuidados com o filho, com a vida cotidiana do casal (que como paradigma, não para nem mesmo com a doença do filho), deve-se inserir momentos a dois. Mesmo nos corredores do hospital é possível sim,retomar a fase do namoro,que consiste num olhar, numa mensagem, num beijo na boca e no carinho de casal que se ama.

É isto mesmo: um beijo, um segurar a mão, enquanto esperamos um resultado de um exame. Afinal, aquele exame é mais uma prova que o amor do casal deve superar, como todos os inúmeros percalços e problemas que surgem.

É fundamental não se abandonar.  O desejo, o sexo, o carinho homem/mulher é tão importante como a água e o alimento que se consome.  Sem eles, não haverá o casal e, com certeza, será um problema a mais que acabará repercutindo e talvez seja até sentido pelo filho doente de câncer que, com senso de culpa, terá perturbada sua recuperação.

Esperar um momento “sem problemas” para ter sexo e amor?

Desculpe a franqueza, mas esse momento, se existe, é tão volátil quanto uma bola de sabão.  Façamos amor nas adversidades e estas, quem sabe, se tornarão menos pesadas.

Deixe seu comentário