Quando o luto parece não ter fim: superando o passado da perda

Terapias especializadas ajudam profissionais de saúde e pacientes a encarar a perda e tornar possível viver mesmo com a dor, transformando-a em saudade

0
361
cuidados paliativos

A.F tem 68 anos, mãe de três filhos, perdeu o esposo, quando ainda era jovem tinha pouco mais de 40 anos de idade. J.T. sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) aos 42 anos de idade e morreu horas depois do diagnóstico. Na época, ela conta que o sofrimento pela morte do marido acabou ‘abafado’ na garganta. “Tinha três filhos para criar sozinha, e precisava ser forte o suficiente para que eles não sofressem mais do que estavam sofrendo com a morte do pai, eram apenas crianças. O mais velho com doze anos e as irmãs de 9 e 7 anos de idade”, contou.

Mas foi a morte da filha mais nova, aos 28 anos, também por um AVC, que A.F não consegue superar, mesmo passados cinco anos da morte da caçula da família. “Todos os dias olho os porta-retratos, as fotos da Vera e de seus filhos, lembro de cada frase dita por ela naqueles momentos e não sei é uma tristeza que não tem fim”, relata

Saudade

Ela contou que pouco antes da jovem morrer, pedia para a mãe reformar a casa, mudar os ares e aproveitar melhor a vida. “Ela era muito carinhosa, cuidava de mim e então, quando ela se foi, decidi ao menos reformar minha casa e fazer a sala de visitas do jeito que ela me falava”, contou A.F.

A sala de visitas fica fechada, ninguém entra. É como se fosse um ambiente sagrado em que a mãe visita para lembrar da filha. “Cada objeto de decoração desse lugar foi colocado pensando nela. Eu fiz isso tudo como ela queria que fizesse e não gosto que entrem aqui”, relatou.

Acompanhamento psicológico

A.F não teve acompanhamento psicológico para enfrentar o luto complicado. Segundo a gerente de psicologia do Asas Consulting, Karen Bisconcini, “o luto é considerado uma reação a uma perda significativa. Trata-se de um processo e não um momento com tempo definido. Podemos dizer que em geral todos os seres humanos passarão por lutos durante seu ciclo vital. Como esse luto será vivenciado é algo de grande relevância e diz respeito a diversos fatores, como: de que natureza foi a perda, quem foi embora, se o enlutado já passou por perdas anteriores, como costuma lidar com os sentimentos, etc”.

A gerente coordena treinamentos de luto complicado voltado para profissionais de saúde que atuam com familiares de pacientes com doenças de alta de prevalência, nesse caso, pacientes em cuidados paliativos.

“Quando falamos de cuidados paliativos, é preciso ter em vista a temática do luto, processo que pode ter início a partir do diagnóstico de uma doença ameaçadora da vida e incurável e seguir ao longo do tempo de adoecimento e no pós-óbito, no caso dos familiares”.

O ser humano como um todo

O médico assistente de cuidados paliativos do Hospital das Clínicas da USP e secretário geral da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, Douglas Crispim, ressalta que, hoje, dentro do Cuidado Paliativo, o cuidado é visto de forma integral, foca-se no paciente e não apenas em sua doença, o que significa que a doença e todas suas repercussões não serão deixadas de lado, mas o foco do cuidado deverá ser o paciente e o que é importante e proporcional a ele.

Tal cuidado leva em consideração todas as dimensões do ser humano: física, psicológica, social e espiritual e não pode ser considerada adequada sem uma comunicação sensível e eficaz, controle impecável de sintomas e atenção ao luto do paciente e seus familiares”.

Para a gerente de psicologia, ao contrário do que é pensado, “a atenção ao luto é responsabilidade de todos os profissionais da equipe multidisciplinar especializada em cuidados paliativos e não só do psicólogo.

É papel do psicólogo atuar nas demandas específicas que o processo de luto exige por parte de alguns indivíduos, mas toda a equipe tem papel importante no cuidado”.

Em casos como de A.F., um hospital que tenha uma equipe de cuidado paliativo em atuação, proporciona uma atenção integrada a partir do diagnóstico, de tal forma a minimizar os impactos que a comunicação difícil tanto do diagnóstico da doença como da morte do paciente pode desencadear.

Cuidados paliativos no Brasil

Em todo o Brasil, são apenas 110 serviços de cuidados paliativos catalogadas pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos e em Presidente Prudente, cidade que fica à 556 km da capital paulista, está o único serviço brasileiro, com monitoramento para pacientes, seja em ambulatórios, hospitais ou domicílio, incluindo acolhimento do familiar e cuidador para evitar o luto complicado: a Rede de Cuidados Continuados.

M.A.P, foi acompanhada pela equipe da rede de Presidente Prudente e, segundo a sua filha, teve um tratamento que ela jamais imaginou que fosse disponibilizado. “Com essa assistência, pode-se cuidar do corpo e da alma, e ainda nos ajudam a organizar as questões práticas nesse momento tão difícil”, disse a filha.

O luto pode evidenciar variadas reações, que vão depender de quem é o enlutado, seus recursos emocionais e contexto geral de sua experiência. Tais reações podem ser físicas ou emocionais. “Entristecer-se é parte deste processo, o sofrimento vivenciado nesse momento precisa ser enfrentado, portanto, é preciso dar espaço para essa dor ser cuidada. A morte não é medicalizável, tampouco o luto”, ressalta Bisconcini.

O tempo de enlutar-se também é relativo, algumas pessoas falam do tempo limite de um ano. Trata-se na verdade do marco cíclico que um ano tem. Um ano é o tempo das primeiras datas sem o ente querido, o primeiro natal, o primeiro dia das mães ou aniversário, tempo de ressignificar a vida sem a presença física de quem se foi. No entanto, isso não significa que todas as pessoas sentirão o impacto do primeiro ano da mesma maneira. É necessário tornar possível viver mesmo com a dor da perda, transformando-a em saudade.

 

Compartilhar
Artigo anteriorComo cuidar dos seus cabelos em sua casa
Próximo artigoDaminhas, floristas e pajen: o que cada uma representa?
Radialista e jornalista. Profissional da área de comunicação há 18 anos, atuando em rádio, TV, jornal e assessoria de comunicação. Foi correspondente da Rádio Jovem Pan por cinco anos. Hoje, atua com assessoria de comunicação da área de saúde e saúde suplementar.

Deixe seu comentário