A resiliência no abuso e negligência infantil

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A resiliência no abuso e negligência infantil

Dou início hoje a uma série de artigos onde abordarei o tema da resiliência: como ela aparece em nossas vidas e como podemos fortalecê-la? Trago como pano de fundo uma questão que muito me aflige: abuso e negligência infantil.

Para início de conversa, vamos entender de onde vem o conceito de resiliência. Proveniente da física e da engenharia, resiliência tem a ver com a noção de módulo de elasticidade e está relacionada à capacidade de um material absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente.

No campo da saúde mental, o conceito foi trazido à tona pela primeira vez, em 1966, por Frederic Flach, psiquiatra americano, quando descreveu o comportamento de pacientes que passavam por situações caóticas, mas logravam novos níveis de adaptação.

Momentos de ruptura na vida fazem com que a pessoa sofra, devido ao estresse causado pela mudança, mas, a partir daí, existe a possibilidade de se reorganizar em novos arranjos e, dessa maneira, se reestruturar, proporcionando à pessoa um fortalecimento físico e psíquico.

Abuso e negligência infantil

Dito isso, vamos ao tema de hoje. Casos de abuso e negligência infantil, embora muitas vezes velados, são muito comuns em nossas comunidades, sendo o Brasil o país com as maiores estimativas de maus-tratos contra crianças no mundo.

Esse dado torna-se ainda mais alarmante se pensarmos que, na maioria dos casos, os adultos de que as crianças dependem são os responsáveis ​​por abusar delas, podendo ser um cuidador, parente, amigo da família ou qualquer adulto em uma posição de autoridade sobre a criança.

Dentre as diversas modalidades de abuso estão o abuso físico, sexual, emocional e psicológico. Partindo do princípio de que toda criança tem direito a uma infância segura e a uma vida livre de violência, a experiência de abuso e negligência infantil infringe esse direito e pode prejudicar o desenvolvimento físico, mental e emocional dela.

O abuso infantil pode ser definido como um ato que resulta em danos sérios ou riscos de danos causados a uma criança. Já a negligência ocorre quando um cuidador não consegue atender às necessidades básicas de uma criança, caracterizando-se muitas vezes por atos de abandono da criança, privando-a de alimentos, vestuário e cuidados com a saúde.

Sobre a culpa

Sempre que trago esse tema à tona, uma das questões que sinto mais urgência em abordar é a da culpa, visto que esse é um sentimento muito comum a crianças (futuros adultos) que foram abusados.

Acho importante frisar que o abuso e a negligência infantil nunca são culpa da criança. Muitos adultos abusivos confiam na inocência de uma criança para convencê-las a ficarem em silêncio ou a mentir sobre o abuso que está acontecendo.

Crianças que sobrevivem a abusos podem experimentar sentimentos de vergonha, culpa ou constrangimento associados aos maus tratos ou negligências e, até mesmo, acreditar que o abuso é culpa delas.

Experimentar esses sentimentos, além de ferir a essência da criança, pode fazer com que ela se sinta confusa e sozinha.

A resiliência nestes casos

Onde entra a resiliência nesses casos? Diante de situações adversas ou traumáticas, a criança pode usar seus próprios recursos internos (características individuais), assim como pode se beneficiar usando suas competências relacionais, como empatia e capacidade de buscar ajuda.

Outras características importantes são uma alta autoestima, temperamento fácil, um apego seguro, criatividade e bom humor.

As respostas das crianças podem depender da gravidade e frequência do abuso, da disponibilidade de apoio familiar e comunitário e da resiliência da criança. Quando o abuso e/ou negligência ocorrem na própria família, um apoio social fora da mesma pode proteger a criança da adversidade.

As pessoas que apoiam, considerados verdadeiros tutores de resiliência, segundo Boris Cyrulnik, podem ser professores, vizinhos, terapeutas. A escola também possui um papel positivo, pois é no ambiente educativo que comumente encontram-se esses tutores de resiliência.

Fazer parte de atividades religiosas, culturais e/ou humanitárias funciona, da mesma forma, como fator de proteção e pode auxiliar a criança abusada a se reerguer e seguir seu desenvolvimento.

Estudos constatam que muitas crianças superam a negligência e o abandono precoces e os atrasos de desenvolvimento e começam a florescer quando beneficiadas por um cuidado protetor posterior, o que corrobora a ideia de a resiliência ser um processo constantemente possível.

Então, em muitos casos, é possível atenuar – ou mesmo prevenir – esses resultados negativos, conhecendo os sinais e reações comuns ao abuso infantil.

Reconhecer os indicadores e começar uma conversa aberta e solidária com uma criança é um primeiro passo importante na identificação de um problema e início do processo de cicatrização.

Criar confiança

Nessas situações de abuso e negligência infantil, é comum a criança sentir-se completamente só mas, movida pela resiliência, possivelmente em algum momento vai confiar em outras pessoas para serem sua própria voz.

E é nessa hora que não podemos negligenciá-la uma vez mais. Se uma criança divulga abuso ou negligência diretamente, é importante ouvir e ser solidário a ela ao validar o quão assustador pode ser falar sobre o abuso e reafirmar o quão corajosa está sendo ao compartilhar essa informação.

A resposta de uma pessoa à divulgação é fundamental para ajudar a criança a lidar com os efeitos do abuso.

Entendo que, nesses momentos, muitas pessoas podem ficar assustadas e sem saber o que fazer, mas quero assegurá-los de que você não precisa ser um especialista, você só precisa ser você mesmo.

Se uma criança compartilha sua experiência com você, ela está enxergando alguém em quem encontrar apoio, compaixão e orientação. Embora você não possa tirar o que aconteceu com ela, você pode ser uma fonte de conforto.

Como?
  1. Escute: escutar é por si só um ato de amor.
  2. Valide: muitas vezes, crianças abusadas ou negligenciadas podem sentir que o que aconteceu com elas é sua culpa. Poder contar com um adulto que valide e legitime o que aconteceu é fundamental para a criança.

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