Em entrevista exclusiva, Carlos Wizard fala sobre conciliar sua vida familiar e carreira

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Para o empresário, ter uma fé e uma crença, é uma direção e um freio. Uma direção porque nos dá um norte, um caminho para seguir e um freio porque nos protege de perigos

Em abril, um dos maiores empresários do País, concedeu entrevista exclusiva para a Revista Nova Família, que republicaremos na íntegra, uma vez que a excelente entrevista fala sobre diversos temas do mundo familiar.

Para ele, a família, o trabalho e religião são como a direção e o freio em um automóvel: fundamentais para nos manter no caminho certo e nos livrar dos perigos que estamos expostos.

Sentado na confortável poltrona de uma das salas do Templo Mórmon de Campinas, em São Paulo, Carlos Wizard Martins, o fundador de uma das mais conhecidas redes de escolas de ensino de línguas no Brasil, a Wizard e, hoje, principal executivo da rede de lojas de produtos naturais Mundo Verde, ouve atento a primeira pergunta do editor.

Revista Nova Família: Você é um empresário muito bem-sucedido e, naturalmente, muito ocupado. Como concilia tantas atividades com suas relações familiares?

Carlos Wizard Martins: Vou contar uma história. Certa vez eu parei o carro em um posto de gasolina. O rapaz que veio me atender fez uma pergunta incomum. Quis saber se eu era religioso e depois o que, para mim, significava religião. Respondi, inspirado naquele ambiente de carros, que ter uma fé, uma crença, é uma direção e um freio. Uma direção porque nos dá um norte, um caminho para seguir, e um freio porque nos protege de perigos, de coisas ruins.

Então, respondendo especificamente a sua pergunta: quando você tem uma visão mais ampla da vida, como na história que contei, fica mais fácil conciliar as atividades da empresa e a família. Com essa visão, adotei alguns princípios básicos como evitar almoços de negócios, a não ser que seja uma emergência.

Dessa forma, eu consigo estar com a minha família todos os dias. Eu também evito qualquer compromisso aos sábados porque dedico ao convívio com minha família, procurando fazer o que eles querem. E, os domingos, eu dedico às atividades da Igreja.

Meus pais receberam a Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias quando eu tinha 12 anos. E desde aquela época eu sigo os seus ensinamentos. Tudo isso contribuiu para alcançar o equilíbrio entre a vida profissional e a convivência familiar.

Revista Nova Família: Sua trajetória está ligada ao encontro de sua família com a igreja. Portanto, a influência familiar foi importante para que seguisse seu caminho. Como influencia a formação dos seus filhos?

Carlos Wizard Martins: É importante citar isso. Nós temos uma série de atividades obrigatórias e metódicas em nossa família. São coisas simples que todos podem fazer. Por exemplo: as noites de segunda-feira são sempre dedicadas a uma reunião familiar, um momento no qual pais e filhos estão juntos para tratar dos assuntos da família e orar.

Todos os dias, antes de deitar também lemos uma escritura, para irmos dormir com aquela direção em mente. Isso tudo é simples, mas muito importante para criar um ambiente de respeito mútuo, de tolerância. Digo isso porque muitos pais assumem um papel de “chefes” dentro da família. E esse papel não existe mais. O que existe hoje é o diálogo.

Revista Nova Família: É possível, nos dias de hoje, em uma sociedade tecnológica e constantemente conectada, manter a convivência familiar?

Carlos Wizard Martins: A tecnologia nos oferece muitas facilidades, muitos benefícios, muita comodidade. Mas, ao mesmo tempo, é um grande desafio no que se refere a manter o convívio familiar saudável. Não é raro ver pessoas sentadas ao redor de uma mesa onde cada uma está falando com pessoas do outro lado do mundo, mas não entre elas. Ouvi uma frase que acho verdadeira.

A tecnologia aproxima quem está longe e afasta quem está próximo. Da mesma maneira, com a tecnologia nós nos comunicamos muito mais, mas falamos muito menos. É por isso que, em casa, nós adotamos um hábito que acho bastante saudável. Chegou lá pelas 23 horas, quando vamos dormir, peço aos meus filhos que deixem os celulares comigo, na manhã seguinte, os devolvo. Caso contrário, podem passar a noite nas mensagens, joguinhos etc. Confesso que não foi fácil adotar esse hábito, houve muita reclamação, muita choradeira, mas hoje é um comportamento natural em nossa família

Revista Nova Família: Nesse caso, a família tem a função de ser o freio, que você mencionou anteriormente? É ela que impede os exageros?

Carlos Wizard Martins: Eu acredito que é necessário transmitir ao filho a sua capacidade de fazer escolhas, ensinar os princípios corretos e alertar para as consequências das más escolhas. Isso porque nós não vamos poder controlar as atividades dos filhos 24 horas por dia. Ensinando os princípios que consideramos corretos, eles não vão se basear apenas nas influências externas. Vão fazer as escolhas levando em conta também os princípios que receberam dos pais.

Revista Nova Família: Como empreendedor, educou ou vem educando seus filhos, no caso dos mais jovens, para serem empreendedores também?

Carlos Wizard Martins: Eu acredito que fui preparado pelo meu pai, pois desde muito jovem ele me colocou na ativa. Quando tinha 13, 14 anos eu viajava de caminhão com ele pelo interior do Paraná, e muitas vezes, ao parar em frente à mercearia, ele ficava no caminhão e dizia: “Meu filho, vai lá na mercearia, vê se o dono está precisando de alguma coisa; se estiver, você vem aqui no caminhão, pega, entrega, cobra e traz o dinheiro para aqui para o pai”.

Eu acho que desde aquela época eu estava sendo treinado por ele. Treinando a não ter medo, ter iniciativa, enfrentar o desconhecido, eventualmente fazer uma negociação etc. Da mesma forma, eu sempre procurei passar aos meus filhos conceitos de empreendedorismo. Eu nunca dei mesada para os meus filhos. Sempre que diziam estar precisando de “um dinheirinho para isso ou aquilo”, eu lhes dava um “trabalhinho”. Assim, entenderam a necessidade do trabalho. Quando mais “trabalhinhos”, mais “dinheirinhos”.

Revista Nova Família: No seu ponto de vista, o hábito de dar mesada aos filhos é prejudicial?

Carlos Wizard Martins: Não. Eu acredito que cada pai deve decidir isso de acordo com suas convicções e condições. Mas tenho um grande temor. Imagine um pai que dá mesada aos seus filhos e que, por qualquer motivo, como a perda do emprego, por exemplo, não possa mais fazer isso. Geralmente, nesse momento, o filho se revolta contra o pai como se ele fosse o culpado por aquela situação. Ele passa a cobrar o pai, quando, na realidade, o pai não deve nada a ele. Ele é que deve tudo ao pai.

Revista Nova Família: Se tivesse que dar um conselho aos pais, apenas um, qual seria?

Carlos Wizard Martins: Gaste menos dinheiro e mais tempo com os seus filhos. Eu aprendi que dar dinheiro, um presente, para um filho é fácil. Difícil é dar tempo a ele, gastar tempo conversando, fazendo uma caminhada.

Carlos Wizard Martins

Filho de uma costureira e de um motorista de caminhão, Carlos Wizard Martins, aos 12 anos, conheceu missionários americanos e, aos 17, foi morar nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, começou a dar aulas de inglês e construiu um grande grupo de ensino, a partir das escolas de idiomas Wizard. O grupo foi recentemente vendido por quase dois bilhões de reais e o empresário dedica-se, agora à rede de lojas Mundo Verde, comprada por ele também recentemente. É casado com Vânia Pimentel e tem seis filhos. Uma curiosidade: ele acrescentou o Wizard ao seu nome de batismo: Carlos Martins.

 

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