A SOBREVIVENTE

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WJFERNANDA15 - RIO DE JANEIRO - RJ - 15/08/2017 - FERNANDA MONTENEGRO/PROJAC - CADERNO 2 OE - A atriz Fernanda Montenegro durante entrevista ao Estado, realizada no PROJAC, em Jacarepaguá na zona oeste do Rio de Janeiro. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADAO

*Por Beto Alves

Em Os Sertões, Euclides da Cunha apresentou ao leitor uma célebre frase: O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Sem dúvida alguma, essa frase pode caracterizar com muita propriedade, Mercedes, personagem que Fernanda Montenegro vive em O Outro Lado do Paraíso, novela escrita por Walcyr Carrasco e dirigida por Mauro Mendonça Filho.

Fernanda afirmou, categoricamente, “que sua personagem não possui qualquer tipo de protagonismo. Ela irá até onde a história a levar”. Mercedes, uma mulher simplória, moradora da região Central do Brasil, é ligada à terra e aos hábitos de seu lugar. Ela está literalmente de costas para o Atlântico, fitando o interior sertanejo do país, “uma sobrevivente”, como a própria atriz a define.

Nascida no dia 16 de outubro de 1929, no bairro Campinho, Rio de Janeiro, Arlette Pinheiro Esteves Torres, no inicio da carreira, adotou o nome artístico Fernanda Montenegro. Guardando as devidas proporções e o contexto de vida, parafraseando as palavras de Euclides da Cunha, Fernanda Montenegro, como Mercedes, é antes de tudo, uma forte. A própria sobrevivente. É assim que tem se mostrado ao longo da vida, não só em seu trabalho, como nas relações familiares.

Fernanda casou-se civilmente em 06 de abril de 1953, aos 23 anos, com o também ator Fernando Torres. O casal comemorou a união em uma pequena igreja católica de São Cristóvão. Após passar bastante tempo tentando ter filhos de forma natural e com tratamento médico, conseguiram ter dois, a atriz Fernanda Torres e o diretor Cláudio Torres. Com o esposo, Fernanda viveu uma vida em comum de amor e cumplicidade. Com ele, dividiu os palcos e as câmeras, mas principalmente, formou uma família adorável e coesa.

O matrimônio chegou ao fim em 2008, quando Fernando Torres faleceu.

Os filhos cresceram assistindo os pais atuarem.

Como qualquer casal que possui uma vida de trabalho intensa, cuidar dos filhos e da casa não foi uma tarefa simples, mas fez com que Fernanda Torres e Cláudio Torres se encantassem pelo ofício dos pais.

Hoje, Fernanda afirma “que possui uma família formada por poucas pessoas, mas que acima de tudo, independente do número, o amor é o ingrediente principal”.

Fernanda Montenegro diz “enxergar sua família como um núcleo muito “fechadinho”, mas muito unido, embora sejam poucos”. Diretamente, além dela e dos dois filhos, possui três netos.

Em função de uma agenda de trabalho muito intensa e apertada, já que todos trabalham muito, inclusive a própria Fernanda, a atriz afirma que “às vezes não têm tempo para estarem juntos. Devido a isso, para encontrarem-se, precisam de programação”.

“Durante a semana é impossível nos vermos, por isso, compensamos essa dificuldade com dois a três telefonemas diários. Os domingos são a oportunidade ideal para nos encontrarmos. É quando aproveitamos a chance para combinarmos almoços ou jantares em conjunto”, emenda a atriz, com um leve sorriso conformado, mas entusiasmada.

Carinhosamente, Fernanda determina e conclui: “os amigos próximos e queridos, são a extensão de meu pequeno núcleo familiar”.

 

Reverenciada no Teatro 

Iniciou sua carreira teatral no ano de 1950, na peça Alegres Canções nas Montanhas, ao lado de seu marido, Fernando Torres. Ganhou o prêmio de atriz revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, em 1952. Ainda na década de 1950, fez parte da Companhia Maria Della Costa e do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em 1959, formou sua própria companhia teatral, a Companhia dos Sete, com Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli, Alfredo Souto de Almeida e Fernando Torres. A atriz é considerada uma das grandes damas do teatro brasileiro, tendo recebido diversos prêmios ao longo de sua carreira teatral.

 

Premiada no Cinema 

Sua estreia em cinema foi em 1964. Além de ter sido cinco vezes agraciada com o Prêmio Molière, ter recebido três vezes o Prêmio Governador do Estado de São Paulo, ganhou ainda o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim de 1998, pela interpretação de “Dora” no filme Central do Brasil, o que valeu também uma indicação ao Oscar de melhor atriz, em 1999 e ao Globo de Ouro de Melhor atriz em filme dramático. Recebeu também, vários prêmios da crítica americana, no mesmo ano. Entre os filmes em que atuou no cinema estão Redentor, dirigido por seu filho, Cláudio Torres e Casa de Areia, filme dirigido pelo genro Andrucha Waddington. Em 2004, foi escolhida melhor atriz da terceira edição do Festival de TriBeCa, premiada por sua atuação em O Outro Lado da Rua, único filme da América Latina a participar da competição de longas de ficção.

 

Respeitada na TV

Fernanda Montenegro (Foto: CEDOC/ TV Globo)

Primeira atriz contratada pela recém-criada TV Tupi do Rio de Janeiro, em 1951. Em 1953 foi para a TV Tupi de São Paulo. De volta ao Rio, atuou em mais de 160 peças. Em 1963, foi contratada pela TV Rio. Em 1965, ingressou na recém-criada TV Globo. Em 1967, estreou na TV Excelsior, deixando a emissora em 1970. Ainda na década de 1970, a atriz integrou o elenco da TV Bandeirantes. Estreou em novelas da TV Globo no início dos anos 80, em Baila comigo (1981) e não parou mais. Foram diversas novelas e minisséries: Brilhante (1981), Guerra dos Sexos (1983 – A novela foi um sucesso e recebeu diversos prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, entre eles o de melhor atriz para Fernanda Montenegro), Cambalacho (1986), Rainha da Sucata (1990), Riacho Doce (1990), O Dono do Mundo (1991), Renascer e O mapa da mina (1993), Incidente em Antares (1994), Zazá (1997), As filhas da mãe (2001), Esperança (2002), Hoje É Dia de Maria (2005), Belíssima (2006), Queridos amigos (2008), Passione (2010), episódio da série As Brasileiras (2012) e no fim de ano, especial Doce de Mãe, em que interpretou Dona Picucha, personagem principal, onde foi premiada com o Emmy Internacional de melhor atriz. Em 2013, participou do remake de Saramandaia e 2014, viveu novamente Dona Picucha na série Doce de Mãe. No mesmo ano foi anunciada sua participação em Babilônia, novela de Gilberto Braga, no papel da homossexual Teresa.

Reconhecida pelos governantes

Foi convidada para ocupar o Ministério da Cultura no governo dos presidentes José Sarney e Itamar Franco, recusou ambas ofertas. Recebeu em 1999 do então presidente Fernando Henrique Cardoso a Ordem Nacional do Mérito Grã-Cruz, “pelo reconhecimento ao destacado trabalho nas artes cênicas brasileiras”.

*Beto Alves nasceu em Cordeiro/RJ. Possui formação plena em História e Comunicação Social / Jornalismo. Especializou-se em Educação Infantil e Gestão Escolar. É professor da rede estadual do Rio de Janeiro, onde além de lecionar, foi gestor. Também atuou na rede privada, como professor e coordenador pedagógico. É um escritor envolvido com todas as modalidades narrativas. Como colunista, escreve para jornais e para os sites www.mediz.com.br e www.olharcritico.com.br É também roteirista, produtor e apresentador de programas de TV.

 

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