Emoções, filhos, birra e disciplina

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Como que as famílias estão se movimentando para criar filhos emocionalmente saudáveis?

A vida em família é a nossa primeira escola para o aprendizado emocional, filhos não vêm com manual de instruções, é assim mesmo, a gente aprende errando e esses erros nos fortalecem, faz parte do pacote.

Quando a criança nasce ela e sua mãe estão envolvidas em um só campo emocional, formando o seu corpo emocional nos primeiros dois anos de vida, principalmente, ou seja, todas as vivências que a mãe vai ter até o segundo ano da criança, o que ela sente, pensa e age de alguma maneira a criança vai sentir, ela percebe o que está acontecendo com a mãe e com o sistema familiar e responde com a mesma intensidade.

A criança até os primeiros sete anos de vida está exposta, simplesmente ama e confia, ela está aberta para aprender com as pessoas com quem se relaciona, aprender como as coisas funcionam e principalmente, está muito atenta aos exemplos dos pais, aos pequenos sinais: emoções, pensamento e ações dentro daquele sistema familiar. A base do aprendizado da criança é a imitação, ela pega tudo o que está recebendo do sistema familiar e começa a mostrar como uma grande oportunidade de transformação.

Seu sistema límbico, parte do cérebro responsável pelas emoções, relações e comportamentos sociais, está em desenvolvimento, e é por meio deste sistema, que a criança é capaz de se conectar com o seu entorno e perceber emoções e sensações que ali se encontram. Essa percepção, a princípio, é não verbal e se dá através de pequenos estímulos que a criança observa, tais como: tom de voz, expressões faciais e corporais, etc.

Dessa maneira, a partir do nascimento da criança é importante que pai e mãe fiquem atentos ao seu campo emocional, padrões, crenças, valores, maneiras de se comunicarem, conteúdo de conversas e informações, ritmos e hábitos familiares ali presentes. Todo o contexto que cerca a criança vai gerar um grande impacto na formação deste ser que está completamente “desprotegido” e entregue a este lar.

Birras, chiliques! Eles acontecem, são normais, e faz parte do desenvolvimento neurológico e formação da criança, muito comuns na faixa etária entre um a três anos, porém, podem ocorrer em alguns casos até os seis anos de idade. As birras nada mais são do que explosões de raiva e outros sentimentos da criança que ainda não sabe se expressar é dessa forma que ela comunica que algo a desagrada.

O problema é que a maioria dos pais e cuidadores não entendem o porquê das birras, tampouco o que a criança quer transmitir com esse tipo de comportamento. O resultado é que muitos acabam por cometerem erros na hora de corrigirem esse mau comportamento.

“Biologicamente, as birras correspondem a descargas de adrenalina e cortisol liberadas pelo cérebro. Isso ocorre porque a criança ainda é incapaz de inibir os impulsos de seu comportamento. Assim, situações potencialmente estressantes como fome, exaustão, cansaço, frustração, exposição à ambiente muito barulhento ou com muita gente levam a essas descargas hormonais.

Mais do que uma simples reação ao ambiente, as birras demonstram positivamente que a criança está começando a desenvolver sua personalidade a partir da expressão de sua vontade. Elas indicam o início da contestação, por parte dos pequenos, das regras e limites impostos pelos adultos.”

Deixa-me contar a minha experiência: Quando meu filho estava com quase dois anos de idade, fui chamada na escola para conversar sobre três atitudes que ele estava apresentando e nesse período de descoberta, percebi na minha família algumas dificuldades na condução da sua educação e passei a observar como nós pais, estávamos errando ao invés de acertar, e os nossos erros estavam contribuindo para tais atitudes. Confesso que me senti impotente diante desse mau comportamento, pois sem querer nós estávamos sendo permissivos na sua educação.

Ai me perguntei: Mas como mudar? Eu não sabia como! A maioria dos pais não sabe, outros nem querem, acham desnecessário mudar o sistema familiar e preferem seguir aos moldes da sua educação.

As coisas começam a mudar quando pai e mãe percebem que são responsáveis por aquele ser, é muito mais do que falar o que o filho deve fazer, é um processo de se tornar um exemplo digno de ser imitado pelo seu filho, de se lapidar, trabalhar sobre você mesmo, sobre o seu mundo interno.

Consciente ou inconscientemente suas atitudes estão sendo refletidas pelo seu filho. Faça a seguinte pergunta para você: Como eu estou co-criando essa ansiedade (exemplo) que meu filho está manifestando? Como o meu exemplo, como que a minha maneira de me colocar no mundo, está influenciando esse aspecto no meu filho? Se observe! Observe suas ações, redesenhe, crie estratégias, observe o que seu filho está te mostrando para curar o seu mundo interior.

“Educar é educar-se. Vivenciar esta máxima significa compreender profundamente que existe um SER que confiou em você para guiá-lo e educá-lo, que vai seguir seu exemplo e imitar tudo lhe for apresentado. E quando você realmente toma consciência disso, você entende que o assunto da educação do seu filho tem muito mais a ver com você do que com a criança em si.”

Quando os pais estão atentos, assumindo o compromisso com eles mesmos e resgatando o interesse genuíno pela criança percebendo e atendendo as suas necessidades fica muito mais fácil definir regras e limites, para isso, é muito importante que os pais tenham clareza de quais são as regras da sua casa e do sistema familiar.

A base para o limite é a disponibilidade, disponibilidade para educar, assumir compromisso com você, de estar disponível para seu filho, estar presente, percebendo as suas necessidades, observando o comportamento, criando a sua rotina percebendo o seu ritmo e estabelecendo um entorno seguro.

Não tem como ser diferente precisa ter paciência, disponibilidade para imposição de regras e limites, a criança está formando hábitos, precisa de persistência, pegar na mão, repetir um milhão de vezes, fazer junto é um processo de guiar e conduzir e não de impor, brigar.

Nossa postura precisa ser firme, porem acolhedora, olhando nos olhos e os fazendo pensar.

Algumas dicas que podem te ajudar:

– Mantenha-se indiferente diante da birra.

– Após o episódio, acolha a criança no colo — ou converse na altura dela — explicando que esse tipo de comportamento não fará ela conseguir o que deseja,

– Tenha empatia pela criança, procure compreender a situação que está provocando a raiva no pequeno.

– Rotina e previsibilidade são dois fatores essenciais para prevenir novos episódios de birra, principalmente no caso das crianças pequenas.

– Converse previamente com ele em toda a situação que seu filho for enfrentar,

– Esteja sempre no mesmo nível dos olhos dele ou carregando no colo, mas sempre olhando em seus olhos durante a conversa.

– Os pais devem se manter firmes em suas atitudes. Porém, não precisam ser autoritários e sustentar uma criação sob uma série de proibições.

– É importante dizer não, mas também deve-se reconhecer o momento de ser flexível coma criança.

Precisamos estar atentos e resgatar a intimidade e abertura com os filhos com muita presença, atenção ao aqui e agora, é importante entender que esse interesse genuíno e disponibilidade vai te apoiar a conhecer o seu filho e saber as suas necessidades, apoiando no desenvolvimento de um adulto saudável e equilibrado emocionalmente, menos dependente do olhar do outro, da aceitação do outro da necessidade de ser amando e reconhecido pelo mundo externo.

Todo esse processo de entrega, de resgate, de disponibilidade é uma tarefa que deve ser compartilhada não somente entre pai e mãe, mas também com a escola, que desempenha papel importante na formação dos pequenos.

Conheça o Projeto Integrar para instrumentalizar pais e educadores lidar com as suas questões emocionais.

Lembre-se: Os filhos têm como exemplo os pais. Por isso, policie suas atitudes nos momentos de estresse e raiva e contenha-se, não há problemas em pedir socorro, não a problema em mostrar as suas fraquezas, você não pode com tudo, se precisar busque ajuda.

Pais precisam saber lidar com as suas emoções para auxiliar os seus filhos, leia o artigo sobre Excelência emocional.

OBS: Fique atento a alguns tipos de birra. Se elas se tornaram muito freqüentes nos últimos tempos e não fazem parte do comportamento habitual da criança, vale à pena investigar o motivo com mais afinco.

Boa sorte!

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