Refletindo sobre escolhas na adolescência

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Refletindo sobre escolhas na adolescência

A escolha profissional é uma grande questão na adolescência. Muitas vezes é a primeira oportunidade do jovem fazer uma escolha importante realmente sua. Isso não é nada fácil nesse momento de vida porque ele se encontra  em pleno processo de construção de seu próprio espaço psíquico e físico.

Processo de escolha

Por isso gosto de falar em processo de escolha. A escolha é uma capacidade a ser desenvolvida. E esse processo ocorre desde o começo da nossa vida. Pequenas escolhas são exercícios para as grandes escolhas de vida que viveremos mais tarde.

A escolha profissional pode ser uma oportunidade, pode ser algo inspirador, pode proporcionar uma experiência transformadora ao jovem. Mas geralmente não é, porque não é fácil escolher dessa forma mais profunda. Escolher é sinônimo de crescer. Exige uma postura ativa em relação à própria vida.

EU preciso aprender a delimitar as fronteiras entre EU e meus pais, entre EU e os grupos aos quais pertenço, para poder saber o que EU quero e o que Eu posso viver nesse momento da minha vida. Caso contrário, não consigo efetivamente escolher nos dois sentidos necessários: de dentro para fora (podendo acolher como meus sentimentos, imagens e sonhos se manifestam diante dessa questão) e de fora para dentro (com as informações que obtenho). Isso é, a escolha exige uma grande ampliação da consciência!

Inconsciência

Na adolescência, esse mundo interior que nós, psicólogos, chamamos de inconsciente, clama por ser ouvido pela nossa consciência. Por meio das várias transformações corporais, vivenciadas através da ação dos hormônios e do gradual amadurecimento do sistema nervoso característicos deste período, o jovem se sente como que expulso da sua pequena e conhecida casa/corpo/alma e é lançado no desafio de conquistar um novo mundo dentro e fora de si, muito mais amplo e estranho.

No modelo de ensino vigente no Brasil, focado única e exclusivamente no vestibular (a maioria das escolas), o adolescente recebe cada vez mais informações de fora para dentro, ele é treinado a fazer provas e dificilmente será estimulado a realmente refletir e a criar.

Conteúdos esquecidos

Aulas de arte, música, dança, atividades que o auxiliam na apropriação do seu corpo e alma em desenvolvimento são excluídas da grade curricular. São consideradas perda de tempo nesse momento. Ele precisa reproduzir bem o conhecimento que é injetado em volume cada vez maior e deve buscar a perfeição na reprodução desse conhecimento. Ele precisa ser quase uma máquina.

Viver uma realidade tão limitadora durante o ensino médio pode prepará-los para fazer provas e reproduzir conteúdos, mas não os prepara para a vida. E esses conteúdos não são vivenciados, ele são, geralmente, decorados. É uma forma muito limitada de aprendizado.

O adolescente precisa encontrar condições para vivenciar esse momento de escolha de uma forma mais profunda e é nossa tarefa como pais e educadores possibilitar essas condições. Será que estamos fazendo nossa parte?

 

Patrícia Gimenez, psicóloga, trabalha com a questão da escolha profissional, desde 1993.

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