Eficiência em Programas de Diversidade e Inclusão Corporativa

0
26

Alguém me disse que escrever era um vício, eu não acreditei, achava impossível gostar de se expor, compartilhar opiniões… e agora me vejo abrindo minha vida para vocês. Criamos um vínculo invisível mas real, vocês conhecem minhas ideias e posições.

Está certo que não é só através de textos que estamos nos relacionando virtualmente, existem as redes sociais e o Linkedin e, às vezes, não imaginamos o alcance de nossas reflexões.

Encontramos um exemplo do efeito de uma postagem no relato do Theo Van de Loo, CEO da Bayer e conhecido por colocar a  discussão sobre diversidade nas suas pautas. Ele participou de um evento sobre “Eficiência em Programas de Diversidade e Inclusão Corporativa- Business Cases”, promovido pelo IBREI e contou que é brasileiro, descendente de holandeses, com pais que viveram os horrores da guerra, seu pai foi submetido a trabalho escravo na Tailândia e sua mãe viu a cidade de Roterdã desaparecer em minutos durante um bombardeio.

Theo ficou conhecido ao contar a história de um amigo afrodescendente que apesar da ótima formação e currículo foi descartado de uma entrevista de emprego por razões étnicas e ao sugerir ao amigo que fizesse uma denúncia ouviu que isso poderia prejudicar sua carreira pois ele veio de uma família humilde e lutou muito para chegar onde estava. Indignado por causa deste fato, Theo publicou no Linkedin o post“Não entrevisto negros” e se surpreendeu com a reação das pessoas.

Alguns colegas pediram para ele apagar o artigo, mas ele acreditava que não tinha feito nada de errado, outros diziam que ele estava fazendo apologia… apologia do quê? Falavam que ele tinha tido muita coragem, mas ele não se sentia corajoso, só tinha contado um fato real e não se arrependia disso.  Presidentes de outras empresas multinacionais alertavam que “lá fora” talvez eles não entendessem seu posicionamento, mas ele continuou firme e abraçou a causa da diversidade. Hoje ele é convidado para palestrar sobre o tema e seu objetivo é formar multiplicadores nas empresas.

Inclusão não é excluir, é somar, é permitir que numa seleção concorram em igualdade homens e mulheres, representantes de todas as etnias, credos, idade, deficiências físicas ou mentais e orientação sexual, é viver num mundo onde há espaço para todos.

A sua esperança está nesta nova geração, são jovens que buscam impacto ambiental e social, são profissionais que vivem por um propósito, que usam o coração e entendem que devemos buscar resultados mas não a qualquer custo.

O Theo quer deixar um legado para o futuro, ele deseja que o caminho que trilhou até agora seja irreversível, um caminho sem volta, tendo a certeza que o ideal que ele buscou se concretize no comportamento das empresas e dos seus líderes.

Outra painelista foi a Maria Cristina Sampaio, Vice-Presidente do Goldman Sachs, que criou o Programa LIFT (Língua, Inspiração, Foco, Transformação) em parceria com a Alumni a partir da constatação que o idioma inglês era um diferencial impeditivo para os universitários negros oriundos das periferias.  O impacto do programa transformou a vida de um estudante que com a mentoria de executivos conquistou um lugar que seria inimaginável na realidade que vivia. Hoje este programa já beneficiou um enorme número de estudantes.

O Goldman Sachs é considerado um dos mais importantes bancos do mundo e tem representantes  mulheres, negros e LGBT  em cargos de liderança, pois já constataram que empresas que praticam a diversidade de gênero e etnia tem resultados financeiros melhores, cerca de 35% acima da média. Na América Latina, segundo estudos da McKinsey, ter mulheres em posições executivas leva a uma valorização 44% maior nas ações da empresa. A própria Cristina, ao assumir um cargo de chefia, declarou sua orientação sexual, pois queria trazer para o ambiente de trabalho a sua identidade. As empresas precisam ser um local onde o respeito é praticado e a convivência seja harmoniosa.

Fabian Gil, Presidente da Dow América Latina veio contar sobre a Cultura de Inclusão que envolve um comprometimento da liderança e forma-se uma rede espontânea de voluntários e funcionários para criar líderes do futuro. Esses candidatos a líderes devem ter 10 atributos, sendo um deles a habilidade de formar times com diversidade. A Dow já identificou que os melhores times são os mais criativos e para formar esses times é importante que a liderança da empresa tenha um discurso com ações, o exemplo deve vir do alto, os treinamentos devem ser constantes e com verificação de resultados.  A questão é tão importante que a empresa tem um executivo líder para a América Latina que trabalha exclusivamente com a Inclusão.

A Adriana Carvalho, da ONU Mulheres explanou sobre as WEP’s , o Empoderamento das Mulheres no mundo corporativo e a convicção que igualdade significa negócios. Ela destaca a importância das empresas serem signatárias da Declaração de Apoio de CEOs aos sete Princípios para avaliação das políticas e programas das empresas. Sabemos que a igualdade de gênero tem uma perspectiva de ser alcançada em aproximadamente 80 anos mas estamos trabalhando para acelerar este processo e diminuir este tempo.

Para falar de STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)  a Camila Achutti, CEO da Mastertech foi convidada para contar sua história de sucesso. Quando era criança ouvia o pai falar códigos de computadores ao telefone e ela achava aquilo o máximo, era como pertencer a um clube com códigos secretos e na sua visão de menina, falar com as máquinas e computadores era ter superpoderes! E foi desta forma lúdica que ela foi se envolvendo com a tecnologia.

Mais tarde, ao entrar na faculdade levou um choque ao perceber que estava num ambiente predominantemente masculino e pensou onde estão as garotas? Se é tão divertido viver neste mundo digital porque elas não estão aqui? A questão da igualdade de gênero e diversidade começou quando o Tinder surgiu, será que o mundo só tinha homens brancos? E os airbags, porque eram projetados para homens com 1,90m de altura? Ela espera que as novas gerações vejam a tecnologia como um alfabeto, um letramento, devemos olhar para o mundo digital com um olhar de urgência para incluir a todos, principalmente as mulheres neste mundo de inteligência artificial, ela quer evangelizar, espalhar a palavra e transformar vidas com a tecnologia.

Suely Nascimento, da Local Product Manager SAP é uma mulher negra, que desde pequena acreditava que iria ser uma vencedora. De origem humilde,  falava para a mãe que não gostava de pessoas “humildizinhas”, era porque no seu vocabulário de criança não conseguia explicar que se referia a pessoas que se diminuíam, que tinham baixa autoestima. Desde pequena lutou por suas convicções na escola em que estudava, foi briguenta e conquistou uma posição de liderança. Já passou dos 50 anos e fala sobre longevidade no ambiente corporativo, cross generation, a interação entre gerações diferentes. Evidente que as pessoas com mais de 50 anos tem experiência e sabedoria para transmitir aos mais jovens e estes possuem a inovação, a tecnologia, um linguajar e escala de valores diferentes. Os jovens falam em  sustentabilidade e engajamento, praticam o desapego, adoram desafios e costumam viajar para lugares distantes só para absorver outra cultura ou conhecer mais um idioma.  Que magnífica troca de conhecimento e experiências quando unimos essas gerações!

Tivemos também uma apresentação do Ballet dos Cegos da Fernanda Bianchini que atende mais de 300 alunos e é a única escola de ballet para cegos no mundo! Há 22 anos ela transforma sonhos em realidade e foi impossível não se emocionar diante da grandeza do seu espetáculo. Numa apresentação na Europa eles foram aplaudidos em pé por cerca de 10 minutos!

O evento terminou e deixou em nós a certeza que precisamos mudar nosso olhar para o mundo. Uma das palestrantes disse que depois que começou a trabalhar com a questão da inclusão passou a observar se na plateia a diversidade está representada.

Sem dúvida saímos com a certeza que estamos só começando, mas felizes porque os primeiros passos estão sendo dados. Meu desejo é que casos como os que foram relatados sejam multiplicados de forma exponencial, que as pessoas tenham coragem de enxergar uma realidade que existe e que precisa ser notada, fica a sugestão para que entrevistas de emprego sejam feitas às cegas para impedir que talentos sejam desperdiçados.

“A arte de viver  é simplesmente a arte de conviver… simplesmente disse eu? Mas como é difícil! 
Mario Quintana

 

Compartilhar
Artigo anteriorPor que devo impor limites na vida de meu filho?
Próximo artigoQuando o mix das peças separadas mostram sinais de desgaste, é a hora dos vestidos
Presidente da OBME- Organização Brasileira de Mulheres Empresária. Arquiteta formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, bacharel em administração hospitalar pelo IPH - Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Hospitalares e pós graduada em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho. Grande experiência em administração na área da saúde, diretora do Sindicato dos Hospitais, juíza classista na Justiça do Trabalho e voluntária em ONGs.

Deixe seu comentário