A banalização do sofrimento infantil

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A banalização do sofrimento infantil

A banalização do sofrimento infantil. Essa semana um vídeo de dois irmãos – Manuela e Arthur – numa acusação mútua de responsabilidade sobre quem foi o autor das “artes” que a mãe questionava, caiu na rede e viralizou!!

Em poucas horas, muitos perfis influentes de facebook, instagram e vários grupos e whats app começaram a divulgar o vídeo como algo engraçado, já que a Manuela, quando via que seria punida (eles estavam o tempo todo sendo ameaçados com uma cinta na mão), chorava muito, claramente mostrando desespero, e apontava o irmão como culpado.

E quando a mãe oferecia um prêmio sobre o feito, numa manobra equivocada de obter a verdade, ela rapidamente se entregava dizendo: “fui eu, mamãe”!!

Como educadora parental, não posso deixar de manifestar meu repúdio sobre a maneira como esse vídeo foi divulgado e meu pesar sobre todas as pessoas que riram disso: o riso existe porque existe identificação.

Quantas Manuelas e Arhturs passaram por isso em suas infâncias e continuam refletindo hoje, na vida adulta, os efeitos de uma criação baseada no medo, na ameaça, na agressão, na violência, na manipulação, na mentira?

Não cabe a mim qualquer julgamento sobre essa mãe ou sobre qualquer outra que acredita que a agressão seja uma forma de educação.

Eu entendo que todos os pais agem dessa forma por acreditarem que estão fazendo o melhor por seus filhos. Também, porque estão aplicando aquilo que receberam de seus pais e que, aparentemente, funcionou.

Aparentemente porque, quando mergulhamos nas feridas emocionais e nas crenças limitantes de cada um, podemos enxergar os efeitos dessas ações em seus comportamentos até os dias de hoje.

Mas isso é assunto para outro artigo. Por hora, proponho uma análise sobre as consequências imediatas advindas dessa relação.

A primeira delas é a mentira. Uma criança ameaçada e com medo, vai – inevitavelmente – mentir para seus pais.

Vai mentir e vai esconder não só a “arte”, mas também seus sentimentos e suas necessidades genuínas, porque não encontrará nessas figuras o apoio que precisa para amadurecer emocional e cognitivamente.

Alguns comportamentos que são punidos fazem parte do crescimento natural do ser humano, de sua maturação cerebral, e é absolutamente confuso para a criança entender o por quê ela está apanhando justamente de quem mais devia protegê-la e, acima de tudo, ensiná-la a criar responsabilidade, desenvolver estratégias para resolução de problemas, empatia, colaboração, respeito por si e pelo próximo.

Pelos mesmos motivos, esse filho irá se afastar dos seus pais, por não se sentir compreendido, por se sentir inadequado e indígno de afeto.

E aqui podemos pensar nos adolescentes, quantos deles são inacessíveis para seus pais por falta de compreensão?

Um outra conseqüência é o direcionamento para uma relação desonesta com o outro.

Não assumirei essa responsabilidade (claro, não quero ser punida!), apontarei o dedo para o outro mesmo sabendo que isso vai prejudicá-lo porque eu preciso me safar. É cada um por si!!!

Quantos adultos não reclamam exatamente disso hoje, é um tal de “fulano puxou meu tapete” que nem sei dizer! Será que não estamos gerando essa crença em nossos filhos, de que é assim mesmo que as coisas funcionam e segue o barco?

E o mundo melhor que desejamos para nós e para eles, qual parte que nos cabe dessa responsabilidade? Faz sentido pra você?

Para finalizar, trago aqui um último ponto que julgo muito importante!!

Nós – pais e cuidadores – somos referência pra essas crianças. Quando educamos de forma violenta, isso pode ser interpretado por elas como uma forma de amor.

Até porque o discurso é esse. E elas acabam entendendo o amor como algo violento. E não, amor não é violento, em nenhuma hipótese!!! E de novo, vamos olhar pros adultos hoje.

Quantos deles não se encontram em relacionamentos abusivos, sofrendo agressões físicas e emocionais e ainda assim permanecem nessas relações doentias?

Será que as referências de amor não foram passadas a eles de forma equivocada, e por isso não conseguem enxergar a situação com clareza?

Será que eles não pensam “ é a forma dele de amar” ou ainda “eu mereço passar por isso, sou mesmo imprestável”?

Quanto dos comportamentos dos nossos pais refletem nas nossas decisões e ações hoje? E quanto dos nossos comportamentos nossos filhos levarão para suas vidas?

Entendem o tamanho da responsabilidade que carregamos quando é nosso o dever de atuar diretamente na formação e condução de outras vidas?

Educar dá trabalho. Exige dedicação, disciplina, auto controle, auto conhecimento, tempo. Tudo tão escasso nos dias de hoje.

A boa notícia é que existem alternativas. A Educação Parental chegou para atender a demanda desses adultos que entendem que repetir padrões antigos de criação não está funcionando.

Muitos estudos baseados em desenvolvimento infantil e neurociência nos respaldam e reforçam a necessidade e os benefícios de uma abordagem mais amorosa e gentil, sem perder a firmeza e a liderança dessa relação.

Deixo meu abraço a cada Manuela, a cada Arthur e a cada pai e mãe que utilizam uma forma violenta de educação por um dia ter sido agredido também.

Que vocês sejam acolhidos nas suas dores e que possam se curar dos traumas vividos para seguirem um novo caminho de amor.

Todo sofrimento é genuíno, não devemos banalizar o choro dos que gritam por socorro, principalmente quando essas lágrimas escorrem dos olhares desesperados de uma criança.

Sofrimento infantil não é engraçado.

Por Gabriela Durlo

Educadora Parental e membro da PDA  (Positive Discipline Association) – Brasil. É também coach materna e ministra palestras e workshops abordando o tema da Parentalidade Consciente, baseada em conceitos da Disciplina Positiva e Comunicação Não Violenta.

Próximo Workshop: “Desenvolvendo Habilidades de Vida no seu Filho”, dia 26.10, em Vinhedo.

Informações e inscrições via email [email protected]

COMUNIDADE DE COLUNISTAS

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