A educação midiática como antídoto contra notícias falsas

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Jornalista Christine Bragale fala ao ‘Nexo’ sobre projetos que ensinam crianças e jovens a distinguir verdade e mentira na era digital.

“As pessoas acham que as informações falsas são disseminadas por gente má, por robôs, mas são pessoas comuns, como eu e você, que espalham desinformação, são nossos pais, tios, colegas de trabalho. As pessoas que espalham informações falsas são pessoas comuns”, diz a jornalista Christine Bragale, vice-presidente de um projeto de alfabetização midiática chamado NLP (The News Literacy Project). Bragale esteve em São Paulo, onde recebeu o Nexo, depois de ter passado por escolas e por empresas jornalísticas em Manaus e em Brasília, para falar sobre o que é normalmente chamado de “alfabetização midiática” – uma série de técnicas ensinadas normalmente a crianças e jovens para melhorar a capacidade de discernimento sobre o que é informação confiável e o que é desinformação. A jornalista, que já cobriu a Casa Branca e trabalhou para agências de notícias como a Associated Press, hoje se dedica a envolver jornalistas, empresas de comunicação e escolas num esforço conjunto para conter o fluxo de informações falsas. Ela vê semelhanças no ambiente informativo dos EUA e do Brasil – onde os respectivos presidentes foram eleitos em campanhas eleitorais marcadas pela difusão massiva de informações falsas.

Qual a importância da alfabetização midiática?

Christine Bragale – Nós temos acesso hoje à informação de uma maneira que jamais tivemos em qualquer outro momento da história da humanidade. Isso é fantástico. Nós também temos condições hoje de criar e de compartilhar conteúdos de uma maneira extraordinária. O desafio que tudo isso nos coloca é que não existem barreiras para qualquer um que queira participar desse panorama com a intenção de ludibriar, de enganar os demais.

As pessoas não estão suficientemente alertas em relação aos desafios que a desinformação e a circulação de notícias falsas impõem. Dar as ferramentas necessárias para que as pessoas sejam capazes de distinguir entre desinformação produzida com a intenção de confundir e notícias legítimas que reportam fatos tornou-se um enorme desafio global.

O que nós estamos fazendo é ensinar os estudantes a serem consumidores de informação espertos e engajados. Nós ensinamos a eles que nem todas as informações merecem o mesmo crédito. Ensinamos esses jovens a classificar informação de acordo com seus propósitos: “trata-se de entretenimento? De uma propaganda feita para vender algo? É uma notícia produzida para informar as pessoas? É uma opinião expressa com a intenção de persuadir alguém sobre algo? É uma propaganda para estimular um determinado tipo de ação? Afinal, qual o propósito dessa informação?” Assim, eles podem formar melhor suas próprias opiniões e orientar melhor as decisões que terão de tomar. Afinal, esses jovens, ao crescer, terão de tomar boas decisões comerciais, terão de tomar decisões corretas na hora de participar de uma eleição, por exemplo.

Nós somos uma organização sem filiação partidária. Não estamos interessados em como as pessoas votam, mas na ideia de que a eleição, numa democracia, é uma ação tomada por cidadãos informados, e nós queremos ter certeza de que os eleitores estão bem informados ao exercer o direito ao voto.


Foto: Andrea Comas/Reuters – 21.12.2015 Criança olha jornais impressos em banca de Madri, na Espanha 

 

A alfabetização midiática é uma ação voltada sobretudo para crianças jovens, mas nós sabemos do papel negativo que muitos adultos e pessoas da terceira idade têm nesse cenário. Como lidar com isso?

Christine Bragale – Nós estamos concentrados sobretudo no trabalho com estudantes que têm idade entre 11 e 18 anos porque eles ainda não estão completamente formados no que diz respeito aos seus hábitos e pensamentos. Há, portanto, uma oportunidade para ensinar a eles habilidades muito básicas, habilidades de sobrevivência para o século 21. A dupla checagem de informações, a ideia é de que é sempre preciso checar uma informação antes de compartilhar, tudo isso se converte em algo natural para essas crianças e para jovens nessa idade.

Para adultos que convivem com adolescentes, sejam filhos, netos ou sobrinho, nós esperamos que essa convivência tenha influência positiva sobre os mais velhos, pois, no fundo, trata-se realmente de um desafio para todas as idades.

O que sua experiência diz sobre a possibilidade de que os mais jovens ensinem os mais velhos sobre esse assunto?

Christine Bragale – Meus filhos estão na casa dos 20 anos agora e eu aprendi e aprendo tanto com eles, sobre tantas coisas diferentes. Mas esse não é o tipo de problema que será resolvido numa noite ou sequer ao longo de um ano. Pense nas campanhas antitabagistas, ou ainda nas campanhas voltadas para estimular a reciclagem de lixo, ou ainda as campanhas para que as pessoas lavem as mãos depois de usar o banheiro. São campanhas que levaram anos para espalhar de fato esses hábitos. Então a nossa ideia é começar agora, de maneira que as futuras gerações de eleitores tenham incutidos os hábitos de checar duas vezes uma informação e de informar-se através de meios de comunicação confiáveis, de maneira que isso se torne natural.

Estamos nos esforçando para que essas crianças e esses jovens tenham apreço pelo ambiente informativo. Nós sabemos que os jornalistas são altamente treinados para obter o tipo de informação que os cidadãos comuns não obtêm. E é importante realçar o papel importante que a imprensa e os jornalistas têm em nossas sociedades e nas democracias.

Nós vemos atualmente que há um grupo de pessoas que simplesmente não estão interessadas em saber se determinados fatos são verdadeiros ou não, desde que esses fatos corroborem seus pontos de vista políticos e suas crenças. Como lidar com essa espécie de fé religiosa dirigida à política?

Christine Bragale – Eu sei que no Brasil fala-se muito sobre “fake news”. Eu não acho que esse termo seja realmente muito útil, pois é uma expressão que vem sendo usada como uma arma política. Basicamente se tornou uma expressão usada para se referir a coisas com as quais as pessoas simplesmente não concordam, seja uma reportagem de jornal, seja uma coluna de opinião que não reflete nossa própria opinião. Nós temos nossas próprias tendências e nossos pontos de vista, então é muito fácil rejeitar um ponto de vista que seja contrário ao nosso chamando-o simplesmente de “fake news”.

Isso sempre acontece na política, mas agora esse problema parece ampliado pela facilidade com que notícias falsas podem ser criadas e pela velocidade com que essas notícias falsas circulam. As pessoas não prestam a mesma atenção às correções e erratas tanto quanto prestam às notícias falsas. Então, quando você topa com uma informação que casa com suas próprias tendências, que nós chamamos de uma confirmação de viés, torna-se mais provável que tomemos essa informação como verdadeira e que a tomemos por seu valor de face, em vez de checar duas vezes sua veracidade.

Por isso focamos em crianças e jovens, que talvez tenham menos vieses em relação a certos assuntos, informando-os sobre a importância de que tenham consciência desse vieses e, ainda assim, façam checagens duplas dos fatos.

Vocês têm hoje nos EUA um presidente que se refere aos jornalistas como “inimigos do povo”. Como esse fato influencia o tipo de esforço que vocês realizam?

Christine Bragale – O nosso projeto existe desde 2008. Entretanto, o que aconteceu em 2017 [ano em que Trump assumiu a Casa Branca] é que as pessoas ficaram mais atentas para esses perigos das notícias falsas e da desinformação. O presidente usa o termo “fake news” como um termo político. Ele faz isso para se referir a informações das quais ele não gosta ou com as quais ele não concorda. As pessoas ficaram cada vez mais curiosas, atentas e interessadas sobre isso, assim como pelas respostas que podem ser oferecidas a respeito disso. Mas não é algo que aconteça apenas por causa do presidente. É algo que vem crescendo ao longo dos anos.

A iniciativa que você representa trabalha em parceria com empresas de comunicação. Como funciona essa cooperação? É comum, no Brasil, que jornalistas deem palestras em faculdade de jornalismo, mas nem tanto em escolas, para crianças e jovens. Não há esse engajamento tão claro do jornalismo com a comunidade quanto existe nos EUA.

Christine Bragale – De fato, nós temos muitas parcerias com empresas de comunicação. Muitas das lições em nosso projeto são dadas pelos próprios jornalistas, assim como por especialistas em mídia digital e especialistas em outras áreas relacionadas. O que estamos tentando fazer com isso é constituir um grupo de jornalistas interessados em falar com os estudantes sobre os trabalhos que eles fazem, realizando visitas reais ou virtuais às salas de aula. Nós percebemos que os professores estão muito interessados em trabalhar com essa perspectiva que a combinação com os jornalistas traz para os alunos.

Há pesquisas mostrando que a mídia está entre as organizações menos confiáveis nos EUA e na Europa Ocidental. Nós encorajamos os jornalistas e as empresas de comunicação a levantar a cortina, tornando visível e transparente questões como “quem nós somos como empresa de mídia, quais são nossos padrões editoriais”. É preciso informar o público proativamente sobre como você faz seu trabalho, e quais são os padrões de integridade que você segue. Já não se trata apenas de reportar com honestidade, com acuidade, recorrendo a fontes diversas, reconhecendo erros cometidos, é preciso mostrar qual sua política de erratas, quão visível, transparente e rápido você é em suas correções, por exemplo. Essas informações precisam estar disponíveis e precisam ser compartilhadas. É preciso ganhar o público de volta e manter a credibilidade, e, para isso, é preciso informar proativamente a forma como você, como jornalista, faz seu trabalho.

Qual sua expectativa em relação ao Brasil?

Christine Bragale – Eu vejo muitas semelhanças entre as realidades do Brasil e dos EUA. Estamos todos bombardeados por muitas informações que causam muita confusão. Não sabemos em que informações confiar e quais compartilhar. Tanto americanos como brasileiros estão igualmente preocupados com essa dinâmica e com as saídas para essa situação. Para nós, essa saída é educacional.