Bienal do livro 2019 a era das transformações: de monteiro lobato à escola brasileira

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Nada escapa ao poder inexorável do tempo. Um dos temas debatidos na

Bienal Internacional do Livro de 2019, no Rio de Janeiro, foi o viés

racista na obra do autor do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Na mesa _Relendo

Monteiro Lobato,_os autores Pedro Bandeira e Marisa Lajoto levaram para

o _Café Literário_as questões que fizeram com que o escritor de uma

das mais consagradas obras da literatura infantil passasse a ser relido

à luz das concepções ideológicas contemporâneas. Ambos abordaram,

ainda, as principais características da produção literária

lobatiana: curiosidades da vida do escritor e a importância que ele

teve para a formação de novos leitores no Brasil. No bate-papo, os

autores – Bandeira assumiu o desafio de atualizar a obra de Lobato

para o século XXI e Marisa é autora de uma biografia em primeira

pessoa, a partir das cartas que ele escreveu –,afirmaram que embora

adepto de pensamentos racistas, esse traço não estava presente nas

publicações do escritor; não era um aspecto unívoco da obra dele.

Alinhado às demandas atuais, parte da missão de Pedro Bandeira

consistiu em eliminar as expressões racistas, atualizando os textos

para jovens e crianças contemporâneas. Os xingamentos que Emília

proferia contra Tia Anastácia não têm mais espaço nas novas

edições da Editora Moderna, tampouco na sociedade brasileira. Mas, a

linguagem, a genialidade e o humor de Lobato serão preservados. A

movimentação editorial ocorre no momento em que a obra passou ao

domínio público, ou seja, os direitos autorais não pertencem mais

exclusivamente aos descendentes, 70 anos após a morte do escritor.

Como pai de quatro filhos e mestre em Educação pela Universidade de

Stanford, tenho acompanhado a polêmica em torno dessas novas edições

e do conteúdo da obra original. Em 2010, por exemplo, o Ministério da

Educação e Cultura (MEC) manteve a obra _Caçadas de Pedrinho_no

Programa Nacional Biblioteca da Escola, desde que houvesse a

advertência de condicionar o livro, no contexto de educação escolar,

a professores com a devida compreensão dos processos históricos que

geram o racismo no Brasil. Cabe ressaltar que a edição com uma

adaptação crítica – similar à proposta de Pedro Bandeira – não

é exatamente uma novidade na literatura. O quadrinho “Tintim no

Congo” foi objeto de debates públicos na Europa e hoje conta com

edições revisadas que eliminaram os resquícios do colonialismo belga;

antes, o conteúdo era repleto de estereótipos e preconceitos contra os

africanos.

Monteiro Lobato e Hegé (Georges Prosper Remi) nasceram,

respectivamente, em 1882 e 1907. São resultado de uma escola e de um

modelo de educação pertencente a um mundo muito diferente. E é esse

ponto que quero abordar. Da mesma forma como muitas pessoas (educadores,

pais e autores) resistem à revisão de obras literárias – feita com

respeito e profissionalismo, ressalto –, se opõem à atualização da

forma como educamos nossas crianças e da própria escola, que também

tem sofrido o peso do tempo. Se nós, pais, já não somos os mesmos…

imagine os nossos filhos!

Como especialista em educação e empreendedor da Geekie, tenho rodado o

mundo, palestrando sobre o tema com um olhar muito voltado para a escola

brasileira e as referências educacionais no exterior. Na edição de

2018 do Fórum Econômico Mundial para América Latina, cujo tema

transversal foi a _Quarta Revolução Industrial_– um momento no qual

o mundo está interconectado, mas a organização geopolítica e os

problemas globais não correspondem à forma como estamos organizados

– a minha colaboração foi levar o olhar da tecnologia e da

inovação, dentro de um contexto educacional real e prático. Quando se

pensa que a escola atua com o desafio de preparar o aluno para as

competências do século XXI – mas, que ainda perpetua um modelo de

trabalho baseado nas habilidades necessárias na época da revolução

industrial – percebe-se que a proposta educacional adotada por grande

parte das escolas está distante de um modelo de trabalho e de vida em

sociedade com pensamento crítico, autonomia e visão de futuro.

No cerne do desafio de preparar os jovens para o mercado de trabalho do

futuro está a necessidade de questionar um sistema educacional no qual

as habilidades que ele se propõe a desenvolver – basicamente,

memorização e preparação para um exame vestibular – não têm nada

a ver com as habilidades e competências que o mercado de trabalho exige

(criatividade, pensamento crítico, trabalho em equipe e comunicação).

Ou seja, o oposto do que o modelo tradicional executa ao manter o aluno

sentado em uma carteira, em postura passiva, copiando textos e estudando

sozinho para a prova.

Essa falta de sintonia entre a escola e educar para o futuro está

custando caro; nossos filhos estão abandonando a sala de aula. No

Brasil, de acordo com a PNAD, 50% dos jovens brasileiros não conseguem

concluir o Ensino Médio até os 19 anos. A necessidade de trabalhar,

que pode vir à mente como principal fator da evasão escolar, não é o

primeiro motivo: 40% dos jovens que abandonaram os estudos apontam o

desinteresse – de acordo com a pesquisa da Fundação Getulio Vargas.

O problema do acesso universal à uma educação de qualidade não é

só social, mas também é uma questão de competitividade! Se o país

não garantir que todas as pessoas que passam pelo sistema educacional

tenham capacidade de desenvolver plenamente o próprio potencial,

corremos o risco de deixar vários “Stephen Hawking” pelo caminho.

Se o Brasil quiser ser um país competitivo, precisamos que todas as

crianças tenham uma educação de qualidade. Temos que mudar, no

mínimo, o Ensino Médio para aproximar essas duas pontas; para que o

dia a dia desse aluno na escola seja conectado com o que ele vai ser

demandado no mercado de trabalho. O primeiro passo da Base Nacional

Comum Curricular (BNCC) é direcionar o ensino para habilidades e

competências, mas para que isso aconteça há um longo caminho. E esse

caminho tem muito a ver com levar inovação, tecnologia,

empreendedorismo e noção de cooperação para dentro da sala de aula.

Hoje, a escola muitas vezes ainda está distante de ser um ambiente de

colaboração; o estudante por vezes está sozinho, o pai tem que

contratar professor particular para esclarecer dúvidas adicionais. O

professor também está em uma jornada solitária, dando aulas em

várias escolas e sem tempo de estabelecer vínculos; o coordenador vive

uma rotina sobrecarregada e de cobranças. Ou seja, cada um está imerso

no próprio cotidiano, sendo que a escola deveria ser por essência um

lugar de colaboração e de corresponsabilidade em prol de um objetivo

maior – o desenvolvimento das pessoas. Um lugar de encontro para

alunos, pais, professores e coordenadores; todos unidos em uma

comunidade escolar de fato.

Óbvio que esse desafio de criar uma “nova edição crítica da

escola” passa por toda a comunidade escolar. Mas, acredito que passa

necessariamente pela coragem das famílias de exigir a transformação

da escola; passa por não ter medo da mudança e de lançar um olhar

crítico para esse modelo escolar que tem origem no século XII. E não

se trata de jogar tudo fora, como se nada fosse bom ou passível de

edição. Estou falando de, como nas novas edições de Monteiro Lobato,

reconhecer a genialidade de conteúdos e transformar o que não dialoga

com o mundo atual. Essa é uma decisão urgente, pessoal e

intransferível. As famílias também precisam assumir o protagonismo na

transformação da escola.

Voltando ao tema de literatura e questões raciais, o _Café

Literário_da Bienal do Livro contará, nesse sábado (7 de setembro),

às 11 horas, com a mesa _Machado de Assis e a Literatura Negra_. O

encontro terá a participação da educadora Conceição Evaristo,

mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em Leitura

Comparada pela UFF; o escritor e defensor público do Distrito Federal

José Almeida Júnior, autor de “O Homem que Odiava Machado de Assis;

e Eduardo Assis de Andrade, doutor em Letras – Teoria da Literatura e

Literatura Comparada – pela USP. Os especialistas discutirão o

resgate da negritude do escritor e a importância dessa questão em sua

produção literária. A Bienal Internacional do Livro acontece até

domingo, 8 de setembro, no RioCentro.

| Por CLAUDIO SASSAKI É MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA STANFORD UNIVERSITY E COFUNDADOR DA GEEKIE, EMPRESA REFERÊNCIA EM EDUCAÇÃO COM APOIO DE INOVAÇÃO NO BRASIL E NO MUNDO.