Como se fosse Monty Python: …a gente ri pela acidez dos acontecimentos, pelo inusitado dos flagrantes…

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 Por Gustavo Machado

 Nos últimos dois anos, tenho pensado muito na vida. Pensado não de maneira propriamente filosófica. De modo cômico, talvez. Não a comicidade pastelão das comédias norte-americanas sobre universitários; comigo o negócio acontece mais ao estilo Monty Python: a gente ri pela acidez dos acontecimentos, pelo inusitado dos flagrantes; pela falta de sentido das sequências de fatos, pela urgência compreender.

Tenho pensado na vida e nos seus efeitos colaterais, entre os quais a morte. É um bicho que nos morde sem pressa, mas com vontade. Como em muitos outros casos, não há remédio depois de instalada a moléstia. Mas há vacinas. A falta que a gente tem dos mortos, eu penso, é diferente de qualquer tipo de saudade concebível pela mente humana. Diferente porque mais dura, mais pesada, incontornável. Não cabe em coração algum, tão desconfortável que é. Tenta-se evitá-la, essa falta, mesmo sendo uma manobra sabidamente impossível. Afinal, o impulso à continuidade da vida, à sobrevivência, tende a ser mais imperativo que o pranto.

 Assim, é preciso superar para avançar. Ou avançar mesmo não superando jamais. Também racionalizamos à exaustão, pensando nos ciclos da vida, na espontaneidade inevitável da finitude e em tudo o que nos é reservado entre nascimento e expiação. E, feitos por algum tempo esses exercícios, vamos nos desarmando da vã tentativa de não pensar, não sentir, não desejar a reversão. Até uma ou outra piada contamos. Até em Monty Python se pensa, buscando alguma trégua que vez por outra até chega. Mas a calmaria é breve. Se não breve, frágil.

 Num dia qualquer, desavisados, desprotegidos, somos apanhados pelo mesmo anzol negro do luto que nos fisga e nos devolve ao pesar, à falta, à sensação de irrealidade e injustiça. No fim das contas, o que se pode fazer é esperar que o tempo cumpra seu papel. E que não

 nos falte tempo pra tanto. Uma possível profilaxia: aproveite agora, já, quem ainda pode ser abraçado, beijado, acarinhado. Deixe de lado brigas, rusgas, desentendimentos. Goste de quem você desconfia merecer e faça-o sem restrições. Deixe de lado orgulho, mágoa, despeito, desejo de vingança, vergonha. Da falta de sentido, ria, mesmo desconfortável, como se faz em Monty Python. Tudo se corrige; irreversível, mesmo só a verdadeira falta.