A importância e os desafios da doação de órgãos

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A doação de órgãos é um tema que vem sendo cada vez mais debatido e incentivado na nossa sociedade. Entretanto, ainda gera muitas dúvidas e questionamentos. Doar órgãos (rim, fígado, coração, pâncreas e pulmão) e tecidos (córnea, pele, ossos, válvulas cardíacas, cartilagem, medula óssea e sangue de cordão umbilical) nada mais é do que a manifestação da vontade de ajudar no tratamento de outras pessoas.

Alguns órgãos podem ser doados ainda em vida, como rim, parte do fígado e medula óssea. No caso das pessoas falecidas, apenas com um diagnóstico de morte encefálica é que pode ser realizada. Normalmente acontece com aqueles que sofrem um acidente que provocou traumatismo craniano durante um acidente ou uma queda, por exemplo, ou tiveram uma morte decorrente de um acidente vascular cerebral que evoluiu para a morte encefálica.

É considerada a morte encefálica quando há a interrupção irreversível das atividades cerebrais. O cérebro comanda todas as atividades de nosso corpo e, quando ele morre, todo o resto também deixa de funcionar.

Quem tem o desejo de ser um doador de órgãos deve avisar aos familiares sobre esta vontade, pois, após o falecimento, eles que irão decidir sobre doar ou não. Mesmo assim, ainda existe o risco da família não realizar esta vontade do paciente. Antigamente, era possível avisar por meio dos documentos, mas hoje depende apenas do aviso dessa vontade e da decisão final dos parentes da vítima.

Com os grandes avanços da medicina e com a capacitação adequada dos médicos, os riscos para quem fará doação ainda vivo são cada vez menores. Entretanto, trata-se de uma cirurgia e, assim como qualquer outra, existem riscos associados.

A doação de órgão, em muitos casos, é a salvação de muitas pessoas que estão na fila à espera de um transplante. Hoje, são mais de 60 mil pessoas aguardando por um órgão compatível. A falta de doadores faz com que esse número venha a aumentar. As chances de sucesso são altas, mas depende de alguns fatores determinantes, como por exemplo, as condições de saúde do doador.

Mas afinal, por que a doação de órgãos é tão difícil? Simplesmente pela falta de conhecimento sobre o tema. O desconhecimento em relação a quem pode doar e o que pode ser doado faz com que as pessoas não esclareçam suas dúvidas.

Uma longa espera

Como mencionado anteriormente, muitas pessoas passam anos na fila aguardando a compatibilidade dos órgãos. E foi exatamente o que aconteceu com a mãe de Juliana Santi, que detectou uma doença autoimune no pulmão, aos 18 anos. “O próprio corpo dela combatia os pulmões e não tinha cura. Alguns anos depois, ela começou a usar aparelho de oxigênio durante a noite e depois algumas vezes por dia também. Chegou um momento que ela necessitava usá-lo 24 horas. Mas, mesmo assim, a situação dela continuava critica e piorava com o passar do tempo. Ela precisou ser internada diversas vezes com falta de oxigenação. O único recurso para que a expectativa de vida dela melhorasse, era o transplante”, recorda.

O grande problema é que o transplante de pulmão não é feito em todos os lugares. Os estados brasileiros que possuem maior capacitação para realizar o procedimento são Rio Grande do Sul e São Paulo. “Então, minha mãe precisou se mudar para Porto Alegre. Ela ficou um ano e oito meses na fila de espera e, durante este período, ela foi chamada duas vezes. Na primeira, não deu certo e o pulmão acabou indo para outra pessoa. Na outra vez, ela era compatível”, explica Juliana.

Ela comenta que, infelizmente, sempre existiu e continua existindo um tabu em relação à doação de órgãos. As pessoas demonstram um pré-conceito sobre o tema. ”Hoje, na minha opinião, ainda existe muita gente desinformada, especialmente aqueles que nunca tiveram contato próximo com esta situação. Há quem acredite que os médicos vão matar o paciente para poder pegar os órgãos. Isso tudo é muita ignorância e falta de esclarecimento”, alerta.

Juliana afirma que existem diversos testes para constatar a morte cerebral de um paciente. Eles são realizados em horários diferentes e por vários médicos. E, em um deles, é comprovada a falta de irrigação sanguínea no cérebro. A partir disso, no caso daqueles que autorizam a doação, serão avaliados os órgãos e as condições de saúde do paciente para realizar o procedimento. “A maior burocracia, neste caso, é a aceitação da família. Para quem vai receber, a parte burocrática é a entrada na fila de espera, a ajuda do governo para manter as pessoas que precisam ir para outro estado para realizar o transplante e todo o tratamento que será realizado fora de casa”, destaca.

Na visão dela, o que falta é divulgação e explicação do procedimento de doação e transplante de órgãos, desde a morte encefálica até a doação e recuperação do paciente. “Acho importante mostrar a vida da pessoa que está na fila antes e depois de receber o órgão que precisa. Talvez minha mãe não tivesse morrido se seu pulmão tivesse chegado antes. Para aqueles que estão na espera, cada dia que passa, aumenta a debilitação. Normalmente eles correm contra o tempo, lutam diariamente para manter a saúde em um nível adequado para que possam passar pela cirurgia que é de alto risco. Alguns, para entrar na fila, precisam engordar, ou seja, criar massa magra, já outros, precisam emagrecer para sobreviver à cirurgia”.

No caso de transplante de pulmão, Juliana explica que o paciente precisa fazer fisioterapia para continuar em condições para realizar o procedimento e no pós-cirúrgico também. “É muito importante lembrar sempre que uma pessoa pode salvar outras oito. É uma prova de amor ao próximo. Mesmo durante o momento de tristeza, não custa lembrar que aquele que você amava, pode devolver a vida de quem está à espera de um transplante”, reforça.

Para finalizar, ela frisa a importância de mudar a campanha sobre o tema, talvez explicando que o seu ente querido pode continuar vivendo no corpo de outra pessoa. Assim, quem sabe, as pessoas possam mudar a forma com que vem a doação de órgãos.