Homens na cozinha: eles estão cada vez mais inseridos na gastronomia

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Já passou o tempo em que cozinha era um lugar destinado às mulheres. Hoje, os homens estão se interessando muito mais pela culinária e estão fazendo sucesso na área.

Até bem pouco tempo atrás, quando as mulheres não tinham o seu espaço conquistado e os homens eram maioria no mercado de trabalho, era comum vermos o público feminino se dedicando ao lar, sempre cuidando da casa e da comida. Mas, à medida que elas conseguiram seu espaço no mundo dos negócios, o público masculino também acabou ganhando e se interessando pela cozinha.

Segundo um estudo da Universidade do Michigan, realizado em 2012, os americanos, que nasceram entre 1960 e 1980 se interessam por gastronomia tanto quanto as mulheres. Além disso, eles também estão cozinhando mais do que os homens das gerações anteriores. Entretanto, ainda não é o suficiente para que possamos dizer que há uma inversão de papeis na cozinha, pois as mulheres continuam preparando mais refeições do que eles.

Mas é verdade que eles estão cada vez mais interessados pela culinária. Muitos deles compartilham receitas com amigos e assistem programas destinados à gastronomia. Uma prova desse interesse é Thiago Régis, que tem apenas 21 anos e desde sua infância sempre gostou de ficar na cozinha. Como ele mesmo conta, tudo começou quando ele fazia “miojos gourmet”. “Eu sempre inventava, colocava salsicha ou carne misturada para modificar. De lá para cá então, eu sempre quis poder acrescentar algo a mais nos pratos que fazia, mas não bastava ser aquela comida do dia a dia, eu queria aprender mais. Então, quando completei 18 anos eu tinha a vontade, mas nenhuma prática ou habilidade, e decidi fazer um curso de cozinheiro no SENAC e lá descobri o que eu realmente queria para minha vida: a cozinha”, relembra.

Thiago ressalta que as dificuldades existem a todo o momento. Trabalhar em uma cozinha de restaurante não é fácil. O serviço é puxado e bem desgastante, principalmente quando se está atrelado a uma faculdade. “Você sente o peso de ficar de pé das 9h até às 23h. O único intervalo que eu conseguia sentar era no trajeto do trabalho para casa, isso quando tinha lugar no ônibus. Por outro lado, quando você percebe que seu trabalho, esforço e dedicação estão sendo reconhecidos, que estão sendo recompensados, não tem preço”, anima-se o jovem cozinheiro.

Ele relembra de uma situação um pouco embaraçosa que passou, quando foi contar ao seu pai que o curso que ele havia escolhido para fazer era o de gastronomia. “A reação do meu pai foi clássica, dizendo que isso era coisa de mulher. Só que isso não é verdade e hoje ele percebe que era apenas um preconceito bobo. Eu sinto isso especialmente quando falo para uma menina que sou cozinheiro, posso garantir que já é meio caminho andando”, diverte-se Thiago.

Desde que iniciou sua carreira, no entanto, a situação que mais o marcou foi uma prova na faculdade. Como era uma das últimas semanas do curso, era preciso realizar provas que iriam decidir as notas do semestre. Na aula anterior, ele havia feito os pedidos dos ingredientes e estava tudo disposto nas bancadas quando ele e os colegas chegaram. “As atenções, no entanto, estavam todas voltadas para a sala ao lado onde tinha uma menina que já tinha sido chefe de cozinha em uma hotel e outra que era chefe em uma empresa de eventos de Curitiba. O meu prato era simples, nada muito exagerado, um ravióli de queijo pecorino com uma compota de figo servido com uma manteiga de amêndoas. Fui um dos primeiros a servir devido à simplicidade do preparo e, após a avaliação um dos professores entrou na cozinha e falou ‘pessoal, se alguém conseguir fazer melhor que o Thiago essa noite, nós realmente ficaremos surpresos’. No final, foi o esse ravióli que garantiu que eu iria concluir meu curso na faculdade naquele ano, e o meu prato continuou sendo o melhor da noite. Por isso que digo, quando você vê seu trabalho sendo reconhecido e esforço valorizado, isso paga qualquer sacrifício”, orgulha-se.

Thiago tem apenas 21 anos e, portanto, tem muitas coisas para aprender e realizar. De acordo com ele, seu objetivo é poder viajar o máximo que puder enquanto tiver tempo e disposição para aprender diferentes coisas em relação a diversas culturas, além de conhecer os países e suas culinárias, pratos típicos, etc. “A gastronomia nos permite isso. Pretendo, dessa forma, agregar o máximo de conhecimento possível para que num futuro não muito distante, em que eu já esteja maduro suficiente e já tenha um bom conhecimento, eu possa abrir um restaurante na praia, não muito grande, com 40-50 lugares. Espero assim que eu consiga estabelecer um padrão e uma qualidade, colocando em prática tudo que eu tiver aprendido até lá”, almeja o jovem cozinheiro.

Nunca é tarde! 

Na contrapartida da história de Thiago, que esta começando a vida, temos Fernando Alves que também se interessou pela gastronomia desde a infância, mas que deu espaço para esta paixão depois de maduro.

Os barulhos, aromas e movimento das cozinhas da família sempre o fascinavam. Sua avó materna tinha 15 filhos e a paterna 11. Então, as cozinhas eram verdadeiros salões de festas, onde todos se encontravam e a comida sempre foi sinônimo de confraternização.

Apesar desse contato direto com a culinária, com os prazeres de estar em volta de uma mesa, apreciando pratos deliciosos e a companhia da família, Fernando optou por outra profissão, tornou-se jornalista e também professor em diferentes universidades. Em 2010, no entanto, enquanto estava trabalhando no Rio de Janeiro, surgiu a oportunidade, junto com três amigos, de montar um Bar Gastronômico: Ambre Bar, no Polo Gastronômico de Botafogo. “Quando pude juntar a paixão da gastronomia, com todos os cursos e conhecimentos que fui adquirindo pelas minhas viagens, fui deixando, aos poucos, as aulas de lado. Vendi minha parte, voltei para Curitiba, fiz um pouco de assessoria e então montei o Dona Dulce, especializado em cozinha brasileira contemporânea”, conta.

Com todas as diversidades durante sua trajetória, Fernando revela que teve várias situações marcantes enquanto atuava na culinária. “A mais engraçada foi a de uma senhora que pediu bastante coentro na moqueca, – os garçons eram instruídos a perguntar sobre a quantidade, pois no sul não temos o hábito de consumir ervas – chegando o prato à mesa ela pediu para chamar o chef. Fui até lá e ela me disse que tinha um bicho na moqueca, pois estava com um cheiro muito forte daquele besouro verde, chamado Maria Fedida. Segurei para não rir, recolhi o prato e levei um ramo de coentro para ela sentir o cheiro. E ela mais que depressa: lá em casa coentro é aquilo que a gente coloca na pizza (orégano)”, ri o chef.

Porém, como qualquer negócio, as dificuldades de manter um restaurante são muitas. É preciso um bom plano de negócios, dinheiro para investir em marketing, capital de giro, paciência para prospectar clientes, capacidade de adaptação às necessidades deles sem perder a identidade, ter boa mão de obra e trabalhar sempre com os melhores ingredientes. “O Dona Dulce nasceu com a proposta de trabalhar um cardápio enxuto, carta de vinhos exclusivas e cervejas artesanais e importadas, em um ambiente intimista e confortável. O que ocorreu do início ao último dia. Infelizmente, por um grave problema de saúde do qual ainda me encontro em tratamento, tive que abrir mão do projeto. Por um lado fica a tristeza, por outro a alegria de saber que muita gente liga perguntando se estamos abertos”, conta Fernando.

Mas é difícil não sentir falta. De acordo com ele, o que mais sente saudade é da correria da cozinha, do acabamento dos pratos, de escolher os ingredientes, da conversa com os clientes no salão, etc.

Para Fernando, a área de gastronomia chama a atenção dos jovens exatamente por ter essa agilidade e por ser criativa, permitindo desenvolver várias atividades como pastisserie, massas, carnes, comida brasileira, francesa, italiana e sempre está em busca de mão de obra especializada.

Para finalizar, os dois chefes, Thiago e Fernando, deixam uma mensagem para aqueles que sentem vontade de entrar nesse mundo tão fascinante e saboroso da gastronomia.

“Como em toda área é preciso gostar. Ok, sei que é um chavão, mas a pura verdade. É muito mais fácil ganhar dinheiro fazendo o que gosta do que um curso tradicional. Já quem tem vontade de ter seu restaurante ou negócio de comida, existe espaço para todo mundo, porém é necessário uma pesquisa de mercado e um bom plano de negócios para investir no local e no segmento correto”, aconselha Fernando Alves.

“Antes de qualquer coisa, é preciso se perguntar o que você realmente quer. Mas lembre-se, não o que seu pai, sua mãe, sua namorada querem, é a sua vontade que deve ser questionada. Se eu tivesse ido pela cabeça do meu pai, hoje eu estaria cursando engenharia mecânica e, com certeza, teria várias dependências e não iria sentir nenhum prazer exercendo esta profissão. Fiz as minhas escolhas, segui meu caminho, enfrentei obstáculos, mas estou respondendo as perguntas desta matéria dentro de um ônibus, viajando para a Ilha do Mel, litoral do Paraná, onde irei trabalhar em uma cozinha de um hotel durante a temporada. Que outra profissão me proporcionaria isso? Acredito que todos devem seguir suas vontades e desejosos, enfrentar os problemas e ir em busca de um novo mundo de aprendizado e vamos estar sempre aprendendo como cozinheiros. Eu digo que vale muito a pena”, finaliza Thiago.