Lilian Schiavo conta como a cultura japonesa moldou sua vida pessoal e profissional

os bambus na cultura japonesa

Sou filha de japoneses e cresci ouvindo histórias sobre bambus. Confesso que na época não entendia a importância dessa planta que aparentemente não tinha nada de excepcional. Preferia pensar nas vitórias régias, nas quaresmeiras e ipês que minha mãe amava.

Até hoje repito o mantra “árvore sem raiz não fica em pé”. Para nós, a raiz representa nossos antepassados e por isso respeitamos nossos pais e avós. Tratar mal ou ignorar é como perder a sustentação, é cortar as raízes. Isso se reflete também na vida pessoal e profissional: devemos ser gratos aos nossos professores e todos aqueles que transmitiram algum conhecimento ou ensinamento, bem como às empresas em que trabalhamos e adquirimos experiência e networking.

O bambu é oco por dentro e esta é outra característica que devemos ter. Ser oco não significa ser vazio, quer dizer que há espaço para ser preenchido. É exercer a humildade e ter ciência de que estamos num aperfeiçoamento contínuo. Afinal, quando dizemos que já sabemos tudo, que chegamos no topo do mundo, perdemos a capacidade de sonhar e enfrentar desafios.

Você já viu como o bambu se comporta num vendaval? Parece que está dançando: ele se curva conforme o vento, às vezes parece que vai quebrar mas ele volta para a posição inicial. Estamos falando de flexibilidade e resiliência.

Pessoas inflexíveis acabam perdendo excelentes chances porque acreditam que são as donas da verdade, são pessoas duras que não aceitam novidades, tudo deve ser do jeito que sempre foi e quem pensa diferente está errado. São intolerantes e só se relacionam com os iguais. Se você tem outra etnia, outra religião, outra cultura ou idioma, provavelmente vai ser discriminada. É um verdadeiro desperdício de oportunidades, perdem a grande chance de ser curiosas.

Ser flexível não quer dizer que você não tenha opinião, que é uma maria-vai-com-as-outras, mas sim que é capaz de ouvir o diferente e ter empatia, é respeitar e aprender, é se adequar às situações como um viajante num país exótico que não comete gafes diplomáticas.

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O bambu é resiliente! Por causa das raízes profundas, ele é capaz de suportar intempéries, e aqui vai mais uma lição. Você já plantou bambu? Durante aproximadamente cinco anos, você vai ficar regando e cuidando de uma semente que não dará sinal de vida. Primeiro ele cresce para o interior, para baixo, e só depois de estar com as raízes profundas é que vai aparecer um brotinho.

Quantos tombos você já levou na vida? E depois de cada tombo, respirou fundo e reuniu forças para se levantar… Quanto tempo você dedicou para atingir um objetivo? Pode ser que você tenha deixado de sair para passar noites estudando, que tenha passado fome para guardar dinheiro para uma faculdade, ficado trabalhando enquanto seus colegas iam para a balada, planejado a sua vida para atingir o seu alvo.

Quanto tempo levou para você alcançar o seu sonho? Acredito que muitos anos se passaram, teve gente que tentou fazer você desistir…demorou mas chegou! É como o bambu… ninguém te viu enquanto estava colocando seus alicerces e agora tem gente que acha que você teve sorte!

Aliar a resiliência à persistência é imprescindível. Ter a capacidade de se reerguer te fortalece, mas é preciso paciência para ir colocando tijolo por tijolo na construção do seu objetivo. Sei que às vezes bate um cansaço, uma vontade de desistir, mas nessa hora, lembre-se de tudo que já passou para chegar até aqui. Você não pode jogar tudo fora!

Todas essas lições foram ensinadas pelos meus pais, e só na idade adulta comecei a compreender o que eles queriam dizer. Achava engraçado o modo como os japoneses educam os filhos através de filosofias e fábulas, contando histórias que te fazem refletir desde pequena. Tudo tem um significado.

Já contei que Kintsugi é a arte de consertar cerâmicas japonesas quebradas que são preenchidas com ouro e se tornam mais valiosas do que antes? Assim somos nós: podemos sofrer uma queda aparentemente irreparável, ficar em pedaços e por causa disso sermos transformados em pessoas mais valiosas, com um brilho que vem do interior, uma capacidade de se destacar do comum, muita experiência e conhecimento para dividir e uma vontade imensa de amar a vida na sua plenitude, com gratidão e humildade.

“Quer você acredite que consiga fazer uma coisa ou não, você está certo.” Henry Ford

Este texto foi publicado originalmente no site www.luizandreoli.com.br.

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