Medos e depressão no esporte profissional

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Esporte é sinônimo de alegria, entusiasmo, vibração. Os atletas são admirados pela torcida por suas habilidades excepcionais e sua capacidade de superação. São vistos e tratados como heróis. O esporte também é sempre associado à saúde física e mental: uma combinação entre corpo perfeito, técnica e pensamento estratégico. Mas, fora dos holofotes lançados sobre jogadores e atletas consagrados há uma realidade que quase nunca é mostrada. O medo do fracasso e a depressão assombram o mundo do esporte.

Jogadores de futebol, muitas vezes, caem em um buraco psíquico – e raramente recebem ajuda. Foi o que aconteceu com o goleiro alemão Robert Enke, em 2009. A morte precoce chocou a Alemanha, que não entendia como o goleiro da seleção, dono de uma carreira de sucesso podia cometer suicídio. Capitão do Hannover 96, o jogador de 32 anos não resistiu à depressão que o afligia desde garoto e que se agravou com a morte de sua filha Lara em consequência de um problema cardíaco.

O caso chamou a atenção do mundo inteiro.  Tratados como super-homens, os atletas atuam sob forte pressão e nem sempre estão preparados para essa carga emocional. Depois da morte de Enke, grandes nomes do futebol como Per Mertesacker (ex-jogador do Arsenal) , Sebastian Deisler (ex-Bayern de Munique), Breno Vinícius Rodrigues Borges (ex-Bayern de Munique – hoje Vasco da Gama) e Ralf Rangnick, treinador e diretor do RB Leipzig, surpreenderam ao falar abertamente sobre seus medos e problemas de depressão. Mas, o assunto continua sendo um tabu no futebol profissional.

Além de enfrentar a doença, outro grande desafio é justamente vencer o preconceito e falar sobre o tema. Em geral, os atletas não revelam que estão doentes com medo de perder oportunidades de trabalho. Em alguns casos, chegam a pedir ao médico um diagnóstico falso como dor nas costas, febre glandular ou indisposição. E não é só durante, mas depois de terminar a carreira no futebol que muitos jogadores sofrem de depressão. São atletas que não passaram da terceira liga ou não souberam gerenciar bem a vida financeira e que acabam se aposentando com dívidas e sem ter como se sustentar. E mais, a depressão afeta não só os atletas, mas também treinadores e até mesmo diretores de clubes.

É curioso, pois, de fato, a prática de esportes ajuda a combater o estresse e a reduzir as chances de desenvolver depressão. Mas, se não houver equilíbrio, o tiro pode sair pela culatra. Assim, a pressão, a cobrança por bons resultados e o medo do fracasso podem desencadear transtornos de humor ou ataques de pânico. Cada vez mais comum entre atletas e também grandes executivos, no mundo dos negócios, o chamado burn out é nada mais nada menos do que uma grave depressão.

Lidar com a cobrança por um bom desempenho, a pressão por resultados cada vez melhores, a exposição na mídia e as críticas públicas não é nada fácil. Além disso, qualquer jogador corre o risco de sofrer lesões e, consequentemente, ter o passe desvalorizado no mercado, perder a posição de titular ou não ter o contrato renovado. A dedicação para conquistar uma carreira de sucesso no futebol é muito grande e os riscos também. E quando a depressão acontece, surgem dois problemas: primeiro por que ela afeta o rendimento do atleta. Segundo que, por medo de ser discriminado ou prejudicado, ele não procura ajuda e o quadro pode se agravar.

Os sintomas típicos da depressão incluem tristeza, distúrbios de sono, irritação e impaciência. Mas, entre atletas de alta performance, os sinais podem ser diferentes, como desconforto físico, dores, falta de atenção, tristeza e desinteresse. Tanto a depressão como os medos são doenças muito sérias. É importante que os clubes estejam atentos às reclamações dos atletas para encaminhá-los a um especialista que poderá fazer o diagnóstico e indicar o melhor tratamento. A incidência da depressão em esportes profissionais é quase a mesma do que a da população geral. Isso significa que pelo menos 5% dos jogadores apresentam sintomas de depressão.

Qual é o maior risco para os atletas?

Os atletas profissionais estão constantemente expostos a mudanças extremas, como viver em outra cidade, estado ou país, longe dos amigos e da família, às vezes, sem dominar a língua local. Precisam aprender um novo idioma e se adaptar a costumes e a cultura muito diferentes. Além disso, precisam mostrar o melhor de si em um ambiente totalmente estranho. A realidade do dia a dia pode ser bem diferente da vida de um herói e, muitas vezes, até pode ser um herói em campo, mas fora dele é solitário e depressivo.

Tudo isto pode gerar também ataques de pânico o que faz que a ansiedade se intensificar. O pânico vem abruptamente, aparentemente sem causa. Cerca de 30% das pessoas sofrem pelo menos um ataque de pânico em suas vidas, sejam atletas ou não-atletas. Mas, em geral, pensamos que o atleta pode suportar muito mais do que uma pessoa comum, porque ele é excepcional, física e mentalmente mais forte do que a média.

A depressão, no entanto, não deve ser vista como um símbolo de fraqueza. O que é muito comum no mundo do futebol de alta performance dominado pelos homens.

Buscar um tratamento psicoterapêutico com um profissional bem preparado é fundamental para a cura e para evitar tragédias como o suicídio.