O Transtorno do Espectro Autista

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De acordo com a etimologia, a palavra “Autismo” tem origem do grego autos, que significa “voltar-se para si mesmo”. O termo surgiu em 1911, de acordo com Santana (2013), quando Bleuler psiquiatra austríaco, utilizou-o para denominar uma alteração comum à esquizofrenia, sendo o isolamento da realidade externa, o termo autismo teria o significado de estar fechado em si mesmo.

Em 1943, Leo Kanner, psiquiatra americano, estudou onze crianças entre 2 e 11 anos de idade, três meninas e oito meninos, e descreveu todas as suas análises em um artigo intitulado Distúrbios autísticos do contato afetivo (MERCADANTE, 2009 p.35). Posto que, até então, os conceitos de transtorno do espectro autístico, esquizofrenia e psicose infantil se confundiam (BRASIL, 2013)

Após esse estudo minucioso com seus onze pacientes esquizofrênicos, o psiquiatra considerou que as crianças nasciam autistas e que a síndrome era precoce.

No entanto ao observar o comportamento dos pais, mudou seus conceitos em função da frieza do contato entre as mães, gerando nas crianças uma hostilidade inconsciente nas situações de relacionamento social. Dessa forma, passou a denominá-las de “mãe geladeira”. Atualmente essa tese da influência materna como origem do transtorno, foi descartada com o avanço da tecnologia que permitiu estudos mais aprimorados.

Em 1944, Hans Friedrich Karl Asperger,  psiquiatra e pesquisador austríaco,  também teve sua participação para a divulgação do autismo, suas hipóteses eram muito similares de Kanner, com algumas diferenças.

Asperger na Alemanha apresentou histórias clínicas de quatro crianças e as nomeou como “psicopatia autista”, caracterizando o comportamento autista como, falta de empatia, pouca habilidade para fazer amigos, comunicação não verbal pobre e linguagem repetitiva, inabilidade motora e má coordenação (UNTOIGLICH, 2013). A partir desses conceitos, evidenciam-se as características do comportamento clássico do transtorno autista: inabilidade social, e a reciprocidade que interferem diretamente na questão de aprendizagem e interação social.  A criança fica aprisionada a rituais e sintomas, evitando emoções criando um mundo particular, onde a comunicação é um desafio que compromete o desenvolvimento saudável (ANDRADE, TEODORO, 2012).

A primeira desmitificação é que o autismo não é uma patologia (doença), é uma síndrome, ou melhor Transtorno do Espectro[1] -– distúrbio de desenvolvimento cujas principais características consistem em detrimento dos relacionamentos sociais, bem como de comunicação. (BRUNA, 2013).

O termo Síndrome vem do grego syndromé, cujo significado é “reunião” um termo bastante utilizado em Medicina e Psicologia para caracterizar o conjunto de sinais e sintomas que definem uma determinada patologia ou condição. (Portal Educação, 2018).

Transtornos é uma perturbação de ordem psicológica e/ou mental que causa incômodo na pessoa devido a falha de estimulação na região frontal do cérebro. (Portal Educação, 2018)

A partir do último Manual de Saúde Mental – (DSM-5), que é um guia de classificação diagnóstica, o Autismo e todos os distúrbios, incluindo o Transtorno Autista, Transtorno Desintegrativo da Infância (Síndrome de Heller), Transtorno Generalizado do Desenvolvimento não Especificado e Síndrome de Asperger, fundiram-se em um único diagnóstico chamado Transtornos do Espectro Autista – TEA (DSM-IV-TRTM, 2002).

Segundo informações disponíveis no Instituto Pensi, algumas pessoas com TEA podem ter dificuldades de aprendizagem em diversos estágios da vida, desde estudar, até aprender atividades do cotidiano: tomar banho, amarrar calçados entre outros. No entanto algumas pessoas conseguem viver relativamente igual a todo mundo. Porém, há quem necessite de apoio especializado ao longo da vida.  Algumas poderão levar uma vida relativamente “normal”, enquanto outras poderão precisar de assistência especializada ao longo da vida.

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado como um conjunto de sintomas que afetam a socialização, a comunicação e o comportamento, com um especial destaque para o comprometimento do social. Os principais sintomas que pode despertar a atenção do TEA são: ausência do contato visual, movimentos repetitivos e estereotipados, déficits de linguagem (verbal e não verbal), e não corresponder a chamados. (TAKEDA, 01/2017)

Diagnóstico e epidemiologia

Na busca pelo diagnóstico, a caminhada é longa e árdua. Cada nova pesquisa surge uma teoria que diverge da outra e de acordo com as especialidades: psicanalise e psiquiatria vão apresentado, causas, diagnósticos e formas de tratamento, aumentando, ainda mais, a indecisão e a insegurança das mães. Quando finalmente o diagnóstico vem, a primeira reação dos pais é a negação: “não, não pode ser isso, não é verdade! Não meu filho, não.” (SANTOS 2008, p, 26).

Há muitos pediatras que ainda não identificam os sinais de alerta com a síndrome. Segundo a neurologista infantil Dra. Gikovate, (04/2013) esse é um distúrbio mais comum no sexo masculino (quatro homens para cada mulher) e no Brasil, ainda demora muito para ser diagnosticado), geralmente por volta dos quatro ou cinco anos de idade”. De acordo com a neurologista, as crianças que nascem com a síndrome de autismo, apresentam sinais aos nove meses. “Elas não mantêm contato visual efetivo e não olham quando você chama. A partir dos 12 meses não apontam com o dedinho. No primeiro ano de vida, demonstram mais interesse por objetos do que nas pessoas. Não reagem, com as brincadeiras dos pais”. Embora haja essas percepções por parte dos pais, a ausência de um exame para diagnosticar, dificulta o início do tratamento. Entretanto, o diagnóstico não é rápido, pois as crianças, não possuem os mesmos sintomas, nem as mesmas características, além de ter suas causas desconhecidas segundo (MELLO 2005, p.17) “Acredita-se que a origem do autismo seja uma anormalidade em alguma parte do cérebro, ainda não definida, e provavelmente de origem genética” ……. “além disso, admite-se que possa ser causado por problemas relacionados a fatos ocorridos durante a gestação ou no momento do parto.”

A matriz diagnóstica da síndrome compreende dificuldades de comunicação, de interação social e nas áreas de interesse do autista. No entanto há diversas demonstrações de maneira muito singular para cada uma delas. Essa variedade de comportamentos é o que fundamenta o símbolo escolhido para o autismo: um laço composto por peças de quebra-cabeça de cores diferentes. (PIMENTA, 2013).

O autismo passou a ser considerado uma desordem de origem neurobiológica, sendo classificado no CID-10 – Classificação Internacional de Doenças, 1993 -, como um Transtorno Global do Desenvolvimento, por causa de sua diversidade de sintomas, alguns sendo mais leves e outros agressivos, com prejuízo cognitivo e social.

Em alguns casos o TEA, pode ser percebido antes dos três anos de idade, porém o diagnóstico do TEA é obtido por intermédio de observação clínica, aliada as referências dos pais, ou responsáveis, e sempre feito por uma equipe multidisciplinar.  feito sempre por uma equipe multidisciplinar. É importante que a criança seja monitorada de forma física, psicológica e neurologicamente.

Houve um grande avanço nas últimas décadas, na formalização sobre a metodologia desse tratamento, sobretudo com base na experiência de instituições europeias dedicadas ao trabalho com crianças e adolescentes. Esse aprimoramento metodológico tem se tornado objeto de estudo de várias teses de programas de pós-graduação de nossas universidades, sustentadas pelo que é próprio ao campo da psicanálise.

Embora ainda não haja uma etiologia comprovada, que explique os reais motivos para o autismo, muitos estudiosos tentam explorar o assunto para compreender melhor as suas causas, e muitas já foram citadas, sendo as principais, os fatores psicológicos, disfunções cerebrais, alterações de neurotransmissores e fatores ambientais (LINHARES, 2012).

O transtorno do espectro do autismo no Brasil

Na última década, ocorreu um crescimento de movimentos de pais incitando a comunidade científica à pesquisa e à consolidação de tratamentos para seus filhos. “As políticas públicas de educação também foram convocadas a acolher adequadamente seus filhos, do que foi exemplo, no Brasil, a recente Lei 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. (PIMENTA, 04/2013).

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Por Elenice Rampazzo

Referencias Bibliográfica

CIRIGLIANO.M.M.da S.  Discursos sobre o autismo: análise de discurso, musicoterapia e psicanálise. In: Anais do V Seminário dos Alunos dos Programas de Pós-Graduação do Instituto de Letras da UFF

BRASIL.  Ministério da Saúde. Linha de cuidado para a atenção integral às pessoas com transtorno do espectro do autismo e suas famílias no sistema único de saúde. Brasília, 2013, P.17. 

<http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/autismo_cp.pdf>.Acesso 20.11.2018

BRUNA. M. H. V. TEA – Transtorno do Espectro Autista. https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/tea-transtorno-do-espectro-autista-ii/.01.11.2018 às 10h26.

CHEMAMA, R. (Org.). Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.

CHIAPETTA, F. Autismo e Psicanálise – o lugar possível do analista na direção do tratamento. Curitiba: Juruá, 2009.

DSM-IV-TRTM – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. trad. Cláudia Dornelles; – 4.ed. rev. – Porto Alegre: Artmed,2002.

 

GIKOVATE, C.G. No Dia Mundial do Autismo. In: CONTE,J. Diagnóstico de autismo demora muito no Brasil. <https://drauziovarella.uol.com.br/geral/diagnostico-de-autismo-demora-muito-no-brasil/.> Acesso em: 27.10.2018.

INSTITUTO PENSI. O que é Autismo.< https://autismo.institutopensi.org.br/informe-se/sobre-o-autismo/o-que-e-autismo/>. Acesso em 20.11.2018.

LINHARES, D.C.C. Avaliação neuropsicologica e cognitiva dos transtornos do espectro Autista. Porto Alegre: dezembro 2012. Monografia: (Programa de Pós-Graduação em Neuropsicologia), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Psicologia, Acesso em22.11.2017.

MELLO, A. M. S. R. de. Autismo – Guia Prático. 2.ª Edição. AMA. Associação Brasileira de Autismo. Brasília. 2005, pág.

MERCADANTE. M. T.; ROSÁRIO, Maria C. Autismo e cérebro social. São Paulo: Segmento Farma, 2009,p.35.

PIMENTA.P.Pensar.<https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2013/04/06/noticias-pensar,141519/a-psicanalise-e-o-autismo.shtml.> Acesso em 23.11.2018.

QUINET, A. Os Outros em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

SANTOS, A. M.T. Autismo: um desafio na alfabetização e no convívio escolar. São Paulo: CRDA, 2008.

SILVA, S.R. A. da.  Síndrome. Portal Educação <https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/direito/alienacao-parental-a-diferenca-entre-ato-e-sindrome/67530> 23.11.2018.

SILVA. J. A. da, e  MARINHO,C. A. de S, As Contribuições da Psicanálise na Identificação Precoce do Autismo. PSICOLOGADO. <https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/as-contribuicoes-da-psicanalise-na-identificacao-precoce-do-autismo>. Acesso em: 20.11.2018 às 14h04.

SOUZA. M. B. e SILVA. de L. N. da, Equoterapia    no    tratamento    do    Transtorno    do    Espectro  Autista: a percepção dos técnicos. Revista oficial da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA. ISSN:2177-3483 –Volume 9 –Número 1. Campus São Jerônimo,2015.

TAKEDA. T. Ludovica. https://ludovica.opopular.com.br/blogs/viva-a-diferen%C3%A7a/viva-a-diferen%C3%A7a-1.925289/autismo-e-an%C3%A1lise-do-comportamento-aplicada-aba-1.1209484. Em 13.01.2017, acesso em 28.10.218.

UNTOIGLICH, G. As Oportunidades Clínicas com Crianças com Sinais de Autismo e seus Pais. Estilos Clin, São Paulo, v. 18, n. 3, p. 543-558, set/dez. 2013. Disponível em: . Acesso em: 26 de março. 2014.


[1] No âmbito científico – espectro é uma representação das amplitudes, ou intensidades autista (TEA) Transtorno do Espectro Autista.

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