Pais construtores

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Pais construtores

Pais construtores. O trabalho remoto não foi uma escolha, foi a saída encontrada para prosseguir. O início foi aos trancos e barrancos, a maior parte de nós despreparada, sem saber como se comportar numa reunião online.

Rapidamente entendemos as normas, microfones desligados para ouvir o outro, pedir licença para falar, observar se vai ter vídeo para não aparecer descabelada, de pijama ou fazendo a faxina.

Num dos grupos recebemos um pedido do Leandro da 4Daddy, um pai empreendedor social, para responder um questionário com perguntas para famílias com filhos pequenos: quantas horas você dedica ao trabalho doméstico? Como é a divisão do trabalho na sua casa? Quantas horas você consegue permanecer no trabalho online sem interrupção?

Havia uma coluna que especificava as situações e outra perguntava quem realizava a ação. Por exemplo: preparar refeições, fazer compras no mercado, cuidar das crianças (incluindo acompanhar tarefas escolares), fazer faxina… na outra coluna as opções : mãe, pai, ambos, uma terceira pessoa.

Lembrei de algumas lives onde as crianças surgem repentinamente para pedir algo, às vezes ao fundo você vê o marido andando pela casa. A mãe sorri, pede desculpas, nós dizemos que está tudo bem, faz parte do novo normal conhecer os filhos e pets que perambulam pela casa.

Quantas vezes você viu um pai ser interrompido num webinar porque a filha quer saber onde está o lápis de cor?

Outro dia, numa reunião a Lorena pediu licença e saiu por alguns instantes, o áudio continuou ligado e ouvimos ela dizendo para a filha: que lindo! Ficou lindo! Ao voltar, ela contou que o marido teve uma ideia para evitar que a filha invadisse as reuniões, ele escolhia uma parede do quarto e os dois faziam arte, pintavam a parede!

Imaginei quantos pais estão envolvidos nas tarefas domésticas, dividindo o trabalho, dando um bom exemplo.

Lembrei da Cidinha, uma lutadora pelos direitos dos trabalhadores e das mulheres, uma ativista negra, uma mãe que escolheu criar o filho sozinha para não ser vítima de violência doméstica, uma mulher que sofreu assédio no trabalho e enfrentou o oponente com muita coragem.

Gosto de conversar com ela e ouvir suas histórias. A escola onde o filho estudava promoveu um  jogo de futebol para os dia dos pais, ela não teve dúvidas, comprou um uniforme completo e foi para o campo, com direito a foto e um sorriso orgulhoso do Gabriel que aprendeu sobre igualdade de gênero desde o nascimento. Hoje ele é um pai dedicado, um advogado exemplar, um homem que respeita as mulheres e ensina os mesmos valores para o neto da Cidinha.

Além de gerar filhos, os pais constroem o futuro, ensinam valores, plantam sementes através dos exemplos.

Crie suas filhas para serem independentes e quando ela pedir uma história, conte sobre a Malala, a cientista Marie Curie que ganhou o Prêmio Nobel duas vezes, a Dandara, a Frida  Kahlo, mostre as obras da Lina Bo Bardi e da Zaha Hadid que ganhou o prêmio  Pritzker. Quando ela crescer, compre livros da Simone de Beauvoir e da Chimamanda Ngozi Adichie. Ensine-a a gostar de ciências, tecnologia,  engenharia e finanças.

Crie seus filhos para lutarem por oportunidades iguais. Vi um vídeo onde as crianças são chamadas aos pares para uma tarefa e no final são recompensadas com doces, porém, a quantidade dada para uma delas é nitidamente inferior, o resultado é que a criança com mais doces divide com a outra até que fiquem iguais. Absolutamente todas dividiram seus doces por acharem injusto terem cumprido juntas a mesma tarefa e recebido quantidades diferentes. Isto é  igualdade salarial.

Em casa, divida as tarefas. Sei que no começo é complicado, você tem o seu jeito de fazer as coisas, mas conte até mil e sorria se seu marido fizer uma comida intragável, diga que na próxima vez vai ficar melhor. Exerça seu lado zen e incentive seus filhos a limparem o quarto e mesmo que não fique do seu jeito, relaxe.

Peça para lavarem a louça e pendurar as roupas no varal mas não se aborreça se está de uma forma  esquisita, elas irão secar do mesmo jeito.

Fui criada por pais que trabalhavam muito, estavam sempre fora de casa e não tinham muito tempo para as filhas. Naquela época  os trabalhos escolares eram em cartolina, com figuras recortadas de revistas e frases escritas por nós com lápis coloridos e canetinhas.

Tinha que fazer tudo sozinha e o resultado era desastroso! Cortava tudo meio torto, a cola transbordava, as letras não saíam do mesmo tamanho e eu não tinha purpurina e lacinhos para colocar no trabalho.

Algumas meninas eram filhas de professoras ou tinham mães que faziam o trabalho para elas, todos lindos e impecáveis. Eram expostos no mural da escola enquanto o meu  ficava escondido no armário da classe.

Voltava para casa envergonhada e contava para os meus pais o ocorrido, queria que eles me ajudassem também. Eles respondiam que já tinham estudado, feito as lições e agora era a minha vez, eles não fariam por mim mas que o resultado seria visto no futuro, em algumas décadas.

Lógico que ficava desapontada, aquela história de décadas para uma menina de 7 anos parecia uma eternidade.

Hoje agradeço aos meus pais por cada vez que eles me obrigaram a exercitar  meu poder de decisão, de autoresponsabilidade, por cada bronca que levei quando eu quis me vitimizar. Gratidão por cada frase de encorajamento, por acreditarem em mim, por permitir que eu sonhasse sem limites.

*Por Lilian Schiavo – Arquiteta formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, bacharel em administração hospitalar pelo IPH – Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Hospitalares e pós graduada em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho. Grande experiência em administração na área da saúde, diretora do Sindicato dos Hospitais, juíza classista na Justiça do Trabalho e voluntária em ONGs. Atual presidente da OBME- Organização Brasileira de Mulheres Empresária.

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