Por que tantos assistentes virtuais têm nome de mulher

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Robôs e auxiliares eletrônicos de empresas e serviços recebem, com frequência, nomes e voz femininas

Foto:Bence Boros/Creative Commons Criadores das tecnologias que recebem ‘personalidades femininas’ são majoritariamente homens

Na terça-feira (4), a Controladoria-Geral da União lançou um chatbot para receber, pelo Facebook, denúncias, sugestões, solicitações, reclamações ou pedidos de simplificação dos cidadãos.

O robô foi apelidado de “Cida”, abreviatura do nome completo “Chatbot Interativo de Atendimento Cidadão”.

Robôs e assistentes virtuais recebem, com frequência, nomes femininos e, algumas vezes, são dotados de vozes femininas. É o caso da assistente do sistema operacional Windows, chamada Cortana; da Siri, da Apple; e da Alexa, da Amazon.

Normalmente, para ativar a ferramenta é preciso apertar um botão, dizer o nome da assistente e o comando desejado. No caso do Google, o comando de voz não é acionado com um nome, mas com “Ok Google”. Ainda assim, a voz que responde é a de uma mulher.

“Se vamos viver em um mundo no qual sairemos dando ordens casualmente às nossas máquinas, por que tantas delas precisam ter nomes de mulher?”, questiona a editora do site da revista The Atlantic, Adrienne Lafrance, em uma reportagem publicada em março de 2016.

Expectativa ligada ao gênero

A explicação apresentada por Lafrance como a mais simples é estarmos socialmente condicionados a esperar que funções administrativas (como a de secretária) sejam desempenhadas por mulheres.

Criadores dos assistentes digitais também são influenciados por essa expectativa. A editora chama atenção para o fato de que esses criadores são majoritariamente homens.

Se quem está construindo assistentes digitais são frequentemente os homens, e esses assistentes são modelados com base em mulheres, “isso provavelmente reflete o que alguns homens pensam sobre mulheres – que elas não são inteiramente humanas”, disse a professora e autora do livro  “Anthropology of Robots and AI: Annihilation Anxiety and Machines” (Antropologia dos robôs e Inteligência Artificial: ansiedade de aniquilação e máquinas, em tradução livre), Kathleen Richardson, ao site Livescience.

A escritora e colunista inglesa Laurie Penny corrobora a visão de que a tecnologia vem refletindo expectativas ligadas ao gênero, em um artigo de 2016 para a revista New Statesman.

“À medida que passamos a uma nova era da automação, a tecnologia que estamos criando revela de maneira incômoda a forma como a sociedade percebe as mulheres e o trabalho”, escreveu Penny.

Segundo ela, boa parte do trabalho previsto para ser substituído um dia por robôs é hoje realizado por mulheres e meninas, com pouca ou nenhuma remuneração. Ela se refere às tarefas domésticas, de cuidado ou organizacionais.

“Enquanto esperamos a criação de IAs [inteligências artificiais] para servir às nossas necessidades íntimas, organizar agendas e cuidar de nós, fazendo tudo isso de graça e sem reclamar, fica fácil visualizar que muitos criadores se sintam mais à vontade com o fato dessas entidades terem vozes e rostos de mulher”, argumentou a autora.

A preferência pela voz feminina

Alguns estudos demonstram que o cérebro humano tem maior propensão a apreciar vozes femininas em relação às masculinas, considerando-as mais calorosas, mas isso também pode variar de acordo com o gênero de quem ouve.

Em sua reportagem para a Atlantic, Adrienne Lafrance indica que as “personalidades femininas” de assistentes digitais podem ser parte de uma tendência mais ampla, seguida por criadores de tecnologias que assumem traços humanos: dar às IAs qualidades dóceis e não ameaçadoras como estratégia para que sejam mais bem aceitas.

Ela lembra, no entanto, que nomes femininos também já foram dados a tecnologias altamente poderosas e destrutivas, como um obuseiro (peça de artilharia fixa semelhante a um canhão) usado na Primeira Guerra Mundial que recebeu o nome de “Big Bertha”.

Por que isso importa

A adoção de vozes e nomes femininos para bots e outros assistentes preocupa analistas: levando em conta que farão cada vez mais parte do cotidiano das pessoas, essas tecnologias correm risco de perpetuar e mesmo aprofundar estereótipos de gênero.

É o que diz uma analista de comportamento do consumidor, Jo Allison, da empresa londrina Canvas8, especializada em análise de mercado, ao site The Drum.

Ainda que no caso do Google ou da Apple seja possível alterar manualmente o gênero da voz do assistente, o fato de a voz padrão ser feminina acaba por reforçar, segundo a analista, o estereótipo de que mulheres devem necessariamente realizar as tarefas ligadas a serviços e exercer funções administrativas.

Allison ainda afirma que estamos fadados a humanizar a tecnologia. Assim, é um problema significativo que a maioria da IA, com sua característica subserviente, tenha personalidade feminina.

Tanto a humanização referida por Allison quanto a misoginia ficam evidentes no comportamento de alguns usuários, que insultam ou assediam sexualmente as assistentes virtuais, segundo registram as empresas de tecnologia.