Qual a relação entre jogos de videogame e jovens agressivos?

Videogames e violência

Para especialistas, jovens que têm uma família estruturada e um bom diálogo em casa dificilmente desenvolverão comportamento agressivo

Por Pâmela Gonçalves

Um dia após o massacre no colégio estadual na região de Suzano, na Grande São Paulo, um tema recorrente voltou à mídia e às redes sociais: a influência de jogos de videogames no comportamento agressivo dos jovens.

O assunto tomou maiores proporções após uma fala do vice presidente Hamilton Mourão em uma entrevista, na qual afirmava: “Essas coisas não aconteciam no Brasil. A minha opinião é que hoje a gente vê essa garotada viciada em videogames. E videogames violentos. É só isso que fazem. Eu tenho netos e vejo meus netos muitas vezes mergulhados nisso aí. É isso que a gente tem de estar preocupado.”

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Em resposta a essa afirmação, uma hashtag ganhou força no Twitter: #somosgamersnaoassassinos. O assunto chegou a ser um dos mais comentados da internet.

Não é de hoje que os jogos (principalmente os jogos FPS, que quer dizer First Person Shooter, ou Tiro em Primeira Pessoa, em português) têm tido sua imagem atrelada a casos como o que aconteceu em Suzano. É comum surgirem afirmações como “ambos os atiradores tinham contas em jogos online e se reuniam em lanhouses”, ou “ele estava vestido como o personagem de um jogo”.

Mas por mais presente que sejam esses comentários, e por mais força que eles ganhem, não há provas de que os jogos de videogame tenham alguma relação com comportamentos agressivos.

A univerdidade de Oxford publicou recentemente, na Royal Society Open Science, um estudo que buscava analisar a relação entre o ato de jogar games violentos com a agressividade na adolescência. A pesquisa entrevistou 2.008 pessoas, sendo 1.004 jovens entre 14 e 15 anos e 1.004 pais e responsáveis.

Ao mesmo tempo em que os jovens responderam a perguntas sobre suas personalidades e comportamentos dos jogos, seus responsáveis respondiam sobre a existência ou não de comportamentos agressivos em seus filhos.

O estudo também avaliou o conteúdo violento dos jogos levando em consideração as classificações oficiais Pan European Game Information (PEGI) e Entertainment Software Rating Board (ESRB). Ao final do trabalho, não foi possível estabelecer uma relação entre o comportamento agressivo dos jovens com a prática de jogar videogames.

Para o professor de psiquiatria da Unicamp Luis Fernando Tófoli, o estudo busca controlar todas as variáveis sobre o tema, mas é dificil avaliar esse tipo de efeito em adolescentes. Ele acredita que um jovem que está bem psicologicamente, que tem uma família estruturada e um bom diálogo em casa, dificilmente desenvolverá comportamento agressivo diante de um jogo de videogame.

No entanto, para Tófoli, há uma questão ainda não respondida: qual o efeito que estes jogos podem ter em jovens que não estão bem? Ou seja, a questão não é o videogame, mas o jovem que o joga. “Os pais e cuidadores sabem como seus filhos estão? O que têm feito? O que sentem? Em última análise, quem eles são?”, diz Tófoli.

O professor recomenda que os pais e responsáveis devem sempre verificar a classificação indicativa dos jogos, estimular o diálogo em casa e buscar uma relação saudável com seus filhos, sempre atentos a qualquer comportamento diferente do habitual.

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