Tecnologia e crianças: essa combinação pode ser perigosa?

crianças e tecnologia

Psicóloga elenca os prós e contras do uso da tecnologia e ressalta a necessidade de colocar limites para crianças e adolescentes

A tecnologia está cada dia mais presente na vida das pessoas. O acesso à internet é facilitado, especialmente por causa dos smartphones e tablets. As crianças, por sua vez, também utilizam os aparelhos eletrônicos para assistir a desenhos e brincar com os mais variados tipos de jogos. Muitos pais recorrem às tecnologias também para distrair os filhos. Mas até que ponto isso pode ser saudável? Quando começa a ser prejudicial para o desenvolvimento e até mesmo para a segurança dos jovens?

De acordo com a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria, crianças de zero a dois anos não devem ser expostas a nenhum tipo de tecnologia; as de três a cinco anos, devem ser limitadas a uma hora por dia.

Entretanto, é preciso ponderar. Segundo a psicóloga Joslaine Werner, as consequências do uso das tecnologias não são danosas, mesmo porque ela faz -e fará-, cada vez mais, parte das nossas vidas. “Ela pode ser usada na educação escolar, nos relacionamentos com amigos e familiares e até mesmo como meio de distração, desde que estejamos atentos aos limites de tempo do uso e o respeito às faixas etárias recomendáveis dos jogos e redes sociais. Porém, quando a distração passa a impedir ou substituir a convivência e interação com a família, deve-se ficar alerta para estabelecer os limites do uso e recuperar o convívio e o diálogo com a família”, destaca.

Joslaine também explica que a atribulação diária da maioria das pessoas faz com que o tempo se torne escasso e, por essa razão, muitos pais quando chegam em casa preferem que seus filhos se ocupem de jogos ou internet para que eles possam descansar ou se ocupar com outros afazeres. “A consequência mais danosa é a falta de interação da criança com os pais e a família. Esse ‘distrair’, muitas vezes, é usado para ocupar as crianças e eximir os pais da responsabilidade da educação e boa convivência com os filhos. O diálogo, os exemplos e a educação ficam severamente prejudicados”, alerta a psicóloga.

Em alguns casos, os pais acabam usando a desculpa de que é melhor que seu filho esteja em casa, jogando ou se relacionando virtualmente com outras pessoas do que na rua. “É preciso lembrar que relação virtual nenhuma substitui os relacionamentos reais, a amizade e a convivência com outras crianças, amigos e parentes. Brincadeiras ao ar livre, práticas esportivas e disputas reais são essenciais para o bom desenvolvimento biopsicossocial das crianças”, revela Joslaine.

Sendo assim, estabelecer limites é essencial para a formação da personalidade das crianças. Para os adolescentes, os limites podem ser mais flexíveis, mas ainda devem existir, especialmente por se tratar de uma fase turbulenta e ser mais comum que eles tentem burlar normas como forma de autoafirmação.

“Nessa fase, a necessidade de identificação com os amigos é muito maior. Eles precisam perceber que têm algo em comum com outros adolescentes e, muitas vezes, até forçam comportamentos para intensificar essa identificação. Com isso, ter acesso às tecnologias facilita a interação com os amigos e faz com que eles tenham a sensação de pertencimento aos grupos –o que é primordial nessa fase. Entretanto, como é característica também dessa fase o isolamento e a discordância dos pais, o alerta deve ser maior para que o uso das tecnologias não os afaste ainda mais do convívio com a família e com os amigos”, destaca a psicóloga.

Vale lembrar que cada caso é um caso, e cada famílias possui seu “código de normas de convivência”. Dessa forma, deve-se ter em mente que, dentro da individualidade de cada adolescente e dentro da especificidade de cada família, é preciso respeitar os limites de permissão e regulação do uso da tecnologia, de acordo com Joslaine.

Em muitos casos, o abuso do uso de tecnologias tem a função de fuga da realidade. Quando o adolescente sente que a situação real está meio pesada, ele recorre, como mecanismo de defesa, a essas fugas para tentar amenizar seu sofrimento. “Todos nós recorremos a mecanismos de defesa para esse fim. Porém, quando isso se torna recorrente é que é prejudicial, pois a personalidade destes jovens ainda está em formação e essas fugas prejudicam e impedem que o adolescente supere as dificuldades que todos passamos na vida. Quando isso ocorre, observamos graves problemas de relacionamentos, de comunicação, tendência ao isolamento, e outros comportamentos que podem levar a fobias sociais, depressão e outros transtornos emocionais”, comenta a psicóloga.

Por essa razão, é indispensável que os pais acompanhem o que os jovens fazem nas redes sociais e na internet. “A confiança é essencial. Mas, sabendo que as crianças e adolescentes ainda não têm discernimento para perceber os perigos de se expor em redes sociais, a própria necessidade e curiosidade de buscar informações não apropriadas para a sua faixa etária, os pais devem estar atentos para o uso que seus filhos estão fazendo desses meios. É importante que sempre expliquem as razões de seus temores. Advertir que assim como na vida real, na internet também existem pessoas mal intencionadas e que fazem mal uso dela e o agravante é que na internet essas pessoas podem usar disfarces para se aproximar”, aponta Joslaine.

Mas não se trata de policiar tudo o que os jovens fazem na internet, pois o burlar as normas faz parte de uma adolescência sadia. “Os pais devem estabelecer uma relação de confiança com os filhos para que eles se sintam à vontade para que possam pedir ajuda e orientação sempre que estiverem com dúvidas”, destaca a psicóloga.

Prós e contras

Prós
  • Facilidade de busca de informações;
  • Rapidez de resultados;
  • Interatividade;
  • Acesso a notícias e acontecimentos no momento em que eles ocorrem;
  • Participação em grupos e redes sociais;
  • Possibilidade de se comunicar com pessoas do mundo inteiro.
Contras
  • Substituição da convivência real pela virtual;
  • Isolamento;
  • Individualismo;
  • Excesso de competitividade.

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