Tricô e crochê para falar de empreendedorismo feminino

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Tenho uma filha arquiteta, super independente, bravinha e feminista. Morou fora para estudar na Faculdade de Arquitetura de Florença, onde cursou a arte da  restauração, visitou museus e principalmente aprendeu a se virar sozinha.

Já pulou de paraquedas, enfrentou desafios, conheceu vários países e sempre me surpreende com novidades.

Pois bem, ela me ligou e disse que tinha me comprado um  presente, um curso para fazermos juntas, com duração de 4 aulas e 12 horas, portanto eu deveria reservar a agenda para ir com ela. Perguntei o que faríamos, mas ela respondeu que era surpresa.

Passei dias imaginando que iria aprender mergulho submarino, saltar de bungee jump, escalar montanhas, quem sabe, na verdade, iria passear de balão? Da última vez que fiz um curso com ela, quebrei a mão num treino de ginástica funcional tentando me equilibrar em cima de uma bola.

Finalmente chegou o dia em que iríamos começar o curso, marcamos de nos encontrar no seu escritório e lá fui eu rumo ao desconhecido.

Chegamos numa casa residencial, ela toca a campainha, entramos e me deparo com mesas lotadas de mulheres, fios e agulhas. Muitos novelos de lã e agulhas de tricô e crochê!!!!

Eu e minha filha nunca tivemos intimidade com este universo, na verdade mal sei pregar um botão, aprendi a cozinhar aos 40 anos, mas sempre achei fascinante ver como algumas amigas lidavam com trabalhos manuais. Outro dia, fui num evento e a única pessoa que não tinha a camiseta customizada era eu, pois não sabia nem como cortar a gola sem arruinar a peça.

O que isto tem a ver com a coluna sobre empreendedorismo?

Invariavelmente, todas as vezes que falamos em mulheres empreendedoras começamos a falar de bolos, tricô, bordado e crochê, como se isso fosse fácil ou exclusivo de mulheres que não tiveram acesso ao estudo universitário.

Ledo engano! No curso encontrei arquitetas, artistas plásticas, presidentes de empresas, economistas e profissionais liberais. As idealizadoras do curso são formadas em marketing e moda, falam em branding, posicionamento de mercado e dão conselhos para quem quer fazer da arte uma fonte de rendimento. Elas criam e comercializam fios e agulhas específicos para decoração, sugerem modelos de roupas, almofadas, tapetes, puffs, enfim, uma infinidade de produtos.

Mergulho nesse mundo de lãs e cores, contando os pontos para não me perder, descubro finalmente o poder do Mindfullness! Nem meditando consegui me desligar desta forma, fico focada para não errar a contagem.

Algumas das alunas começam a soltar a imaginação e vejo surgirem bolsas, roupas e camas para pets, colchas para os filhos e netos.

Neste ínterim, minha amiga Sheila Procópio me convida para palestrar sobre Parcerias num evento chamado “Empreender e Crescer Personal Organizer”,  fico imaginando como é este público, quem são essas mulheres que entram nas residências para arrumar armários e dobrar suas roupas?

Levo um susto ao ver psicólogas, advogadas, profissionais de marketing, pedagogas, fotógrafa e coachesjuntos e misturados como palestrantes e palestrados, um mundo novo se abre. Falamos de acumuladores, saúde mental, de legislação para micro e pequenas empresas, neurolinguística, ética, precificação, novos nichos de mercados e empreendedorismo.

As Personal Organizers fazem muito mais do que arrumar armários, elas arrumam a sua vida! São capazes de focar em segmentos variados como mudanças, organização de cardápios, de mídias digitais e criação de produtos. A Sheila  criou uma linha de produtos sustentáveis para casa.

Estas experiências serviram de lição. Sempre falo de mulheres empreendedoras, de sonhos esquecidos, de cursos de capacitação, da possibilidade de geração de renda com atividades manuais, mas não tinha ainda vivido essa possibilidade. Sentir na pele que você é capaz de fazer uma almofada de tricô abriu minha alma para entender aquelas mulheres guerreiras que sobrevivem sem nunca terem tido acesso a qualquer informação, montaram seus negócios na raça e coragem.

No evento, quando abrimos o espaço para perguntas, percebo o quanto estas mulheres são inovadoras, destemidas e fortes. Exercem uma profissão que muitos não conhecem, estão desbravando territórios, buscando caminhos e soluções.

Penso naquelas que ainda estão sem voz, escondidas em suas casas, costurando “para fora”, fazendo casaquinhos e gorros que podem ser vendidos por preços exorbitantes nas lojas enquanto elas recebem uma remuneração aviltante. Lembro de uma amiga estilista que foi para a China e Índia e viu bordados serem feitos para marcas caríssimas, uma verdadeira exploração da mão de obra que nesse caso é praticamente escravo.

Temos muito a fazer por estas mulheres empreendedoras, nossa luta está só começando! Precisamos reconhecer este imenso exército de trabalhadoras e ajudá-las a conseguir um lugar ao sol. Acredito que esta mudança se inicia na capacitação, em cursos que ensinem como se tornarem administradoras, protagonistas da própria vida.

Precisamos identificar aonde estão estas mulheres e ir até lá, existe tanta coisa que podemos fazer… Levar informação, ouvir as necessidades que elas tem, buscar soluções em conjunto.

Olhar para elas é levar um chacoalhão, é ser chamada para a realidade, é ser invadida por uma vontade imensa de ajudar, é querer transformar esse mundo num lugar melhor.

“Às vezes a gente tem de ser meio louco mesmo, extremamente obstinado, porque a loucura funciona – desde que exista disciplina, um objetivo muito claro, pé no chão e humildade de saber que a gente vai errar muito, vai aprender com os erros e continuar.”  – Leila Velez, CEO e Fundadora do Instituto Beleza Natural.

 

“Não crie limites para si mesmo, Você deve ir tão longe quanto sua mente permitir. O que você mais quer pode ser conquistado.” – Mary Kay Ash, fundadora da marca de cosméticos Mary Kay

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Presidente da OBME- Organização Brasileira de Mulheres Empresárias. Embaixadora da Paz, vice-presidente do ICS Solutions. Integrante do Conselho Consultivo do IBREI - Instituto Brasileiro de Relações Empresariais Internacionais. Membro do ALC - Asian Ladies Club. Foi diretora do SINDHOSP - Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo-, e juíza classista na Justiça do Trabalho 2ª região. Arquiteta formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, bacharel em administração hospitalar pelo IPH - Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Hospitalares e pós-graduada em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho. Grande experiência em administração na área da saúde.