Trump: ‘Quem fizer negócios com o Irã não fará com os EUA’

Sanções americanas entraram em vigor hoje no país persa; população iraniana demonstra ter perdido as esperanças devido à crise econômica do país

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Trump: 'Quem fizer negócios com o Irã não fará com os EUA'

WASHINTON, BERLIM E TEERÃ – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira que as sanções americanas que voltaram a vigorar hoje contra o Irã são as “mais duras” já feitas e advertiu outros países contra fazer negócios com Teerã.

“As sanções do Irã já entraram oficialmente em vigor. Essas são as sanções mais duras já impostas e, em novembro, subirão para outro nível”, tuitou o presidente americano esta manhã. E acrescentou: “Quem quer que faça negócios com o Irã NÃO fará com os Estados Unidos. Estou pedindo a PAZ MUNDIAL, nada menos que isso”.

MONTADORA ALEMÃ SAI DO IRÃ

Com o reinício das sanções americanas, a montadora alemã Daimler anunciou, também nesta terça, que não vai mais atuar no país persa.

— Suspendemos nossas atividades no Irã com a aplicação das sanções — afirmou à AFP o porta-voz da montadora, que pretendia fabricar e vender caminhões da marca Mercedes no mercado iraniano.

Os EUA anunciaram as sanções depois de abandonarem o acordo nuclear de 2015, assinado também por potência europeias, China e Irã. Pelo acordo, o o Irã se comprometeu a não produzir a bomba atômica. Em troca, o país esperava colher benefícios econômicos com o fim das sanções da ONU, da União Europeia e dos EUA.

Agora, as novas sanções americanas proíbem transações com o Irã que envolvam cédulas de dólar, ouro, metais preciosos, alumínio, aço, carvão e aviação civil. As restrições acabam com a importação de tapetes e alimentos iranianos para os EUA. As punições também atingem empresas estrangeiras que usem o dólar em transações internacionais e/ou tenham negócios com os EUA.

‘ESTÃO DESTRUINDO MINHA VIDA’, DIZ IRANIANO

Enquanto isso, no Irã, muitos culpam o governo do presidente Hassan Rouhani pela volta das medidas restritivas dos EUA contra o país, que dizem representar “o último prego no caixão” da economia iraniana, já em frangalhos.

Com protestos e paralisações por todo o país persa, o povo iraniano não esconde seu desencanto com o retorno das sanções, em especial os mais pobres.

— Sinto que estão destruindo minha vida – diz Ali Paphi, um operário da construção civil. — Do jeito que está a situação econômica, a classe trabalhadora vai morrer. As sanções estão afetando gravemente a vida das pessoas. Não posso comprar comida, pagar o aluguel… Ninguém se importa com os trabalhadores.

Muito do dano econômico já começou antes mesmo das sanções, pois a retórica agressiva de Trump afugentou os investidores do país e provocou uma violenta desvalorização da moeda nacional, o rial. À derrocada na economia se somam problemas como a corrupção arraigada, um sistema bancário caótico e desemprego desenfreado após décadas de má administração.

— Os preços vêm subindo há três, quatro meses, e tudo de que precisamos ficou mais caro antes mesmo que chegassem as sanções — lamenta o fotógrafo Yasaman, de 31 anos, morador de Teerã.

Iraniana passa passa por mural que protesta contra EUA em Teerã: povo lamenta situação do país – ATTA KENARE / AFP

POLÍTICOS DEVEM ‘BEBER O VENENO’ E VOLTAR A NEGOCIAR

Como muitos na capital, Yasaman acredita que os líderes políticos iranianos serão obrigados a voltar à mesa de negociação com os americanos, como ofereceu Trump.

— Espero que isso aconteça um dia. A maioria acredita que no final os políticos terão que “beber o veneno'” — diz, usando uma expressão famosa no Irã, cunhada pelo aiatolá Khomeini em 1988. Segundo o líder revolucionário iraniano, firmar uma trégua para pôr fim à guerra com o Iraque na época era como “beber uma taça de veneno”.

A maioria dos iranianos já está acostumada com a hostilidade histórica dos Estados Unidos, com a qual convivem há quatro décadas. Agora, sua raiva é direcionada contra seus próprios líderes.

— Os preços estão subindo novamente, mas o motivo real é a corrupção do governo, não as sanções — diz Ali, um decorador de 35 anos.

Como muitas pessoas, ele acha que o presidente Rouhani é impotente para melhorar as coisas.

— Ele não consegue resolver os problemas. Mostrou várias vezes que não é quem toma as decisões. Nossos problemas são nossos representantes e o sistema — afirmou.

O RISCO DA DUPLA CIDADANIA

Os iranianos das classes mais abastadas também perderam a esperança, mas ainda têm a opção de ir embora do país, ainda que seja uma decisão dolorosa.

Sogand, um jovem iraniano-americano, chegou ao Irã há cinco anos e chegou a desfrutar do alívio das tensões internacionais obtido temporariamente com o acordo nuclear de 2015. Mas, nos últimos meses, está preocupado, pois tem dupla nacionalidade, e muitas pessoas com dois passaportes vêm sendo presas por espionagem. Assim, resolveu que era hora de sair do país.

— Tenho vergonha por abandonar meus amigos e colegas no meio dessa crise econômica. Me sinto culpado por ter dinheiro para ir embora rapidamente — confessa. — Mas a falta de estabilidade econômica e o fim de todas as perspectivas financeiras foram realmente o último prego no caixão.