Uma história real sobre importância de escutar e não julgar

Uma história real sobre importância de escutar e não julgar



Aconteceu quando eu tinha mais ou menos uns 9-10 anos… Naquela época eu estudava em um colégio de freiras e ia para a escola de ônibus escolar. Todos os dias às 12h descia para esperar o ônibus junto com mais dois coleguinhas da escola. Um que morava no mesmo condomínio que eu e o outro, no prédio da frente.

Os dois eram apenas um ano mais velhos que eu e nossos dias eram sempre iguais: enquanto o ônibus não chegava, a gente batia figurinhas, dava risadas, éramos amigos e crianças. Até o dia em que as coisas mudaram…

Era um dia de chuva e frio e o colega do meu prédio por algum motivo não desceu. Ficamos ali na porta só eu e esse outro menino do prédio da frente e, em pouco tempo, ele acabou sugerindo que a gente esperasse pelo ônibus no hall do prédio dele, já que ali estaríamos protegidos da chuva.

Eu conhecia o menino desde sempre. Éramos da mesma escola (de freiras), da mesma rua, do mesmo bus, conhecia seus pais e sua irmã. Que mal teria, não é mesmo? Só que não… Quando entramos ali, o menino me atacou. Literalmente. Ele me jogou no chão e tentava com toda força arrancar a minha calça, enfiar os dedos em mim, arrancar minha blusa. Eu tentava fugir ainda assustada, sem entender o que estava acontecendo. Queria gritar, mas o choque era tanto que a voz não saia. Por que ele estava fazendo aquilo comigo? Ele me machucou… E foi muito mais que fisicamente!

Quando eu consegui finalmente me desvencilhar desse menino, cansada, magoada, com a roupa abarrotada e o cabelo desgrenhado, vislumbrei que nosso outro colega finalmente saia para a rua. Como se tivesse visto um anjo, saí correndo dali e gritando por ele. Mas, claro, ele também se assustou e não entendeu nada. E eu não tive coragem de contar. Me calei até que o ônibus finalmente chegou.

Diferentemente dos outros dias, desta vez me sentei ao fundo e isolada desejando esquecer o ocorrido. Mas a história não acabou por aí! Não bastasse o ataque asqueroso, o menino entrou triunfante no ônibus contando a todos os outros que havia “me pegado”, etc, etc… De repente, vi todos apontando para a minha cara, rindo, xingando…

Senti vontade de sumir, mas não podia. Estava em choque. Tive raiva de mim, nojo, culpa, vergonha, tudo ao mesmo tempo. Tive medo!!! Mas não podia contar para ninguém, então me calei. Daquele dia até o final do ano me isolei por completo naquele ônibus… Passei a me sentar ao lado de um menino que tinha um certo retraso mental e que por isso se sentava afastado de todos. O nome dele era Abrahão, mas todos o chamavam de “abobrão”. Sempre que podiam, os meninos batiam nele e o ofendiam. Mas claro, só percebi isso depois, quando estava ali ao seu lado vendo o seu sofrimento e o da sua mãe, que todos os dias enfiava o filho naquele ônibus com uma cara angustiada, que só agora eu, que sou mãe, posso entender.

Bom, o tempo passou e sei lá se foi por algum sistema mágico do meu cérebro, essa história por anos e anos foi bloqueada da minha memória, assim como o nome desse menino. Eu soube anos mais tarde que ele morreu… Parece que caiu ou se jogou de uma passarela, que havia de envolvido com drogas, enfim…O fato é que recentemente fazendo uma análise da minha vida, das minhas escolhas, dos meus medos e inseguranças, analisando os tipos de relacionamentos que tive e tentando entender onde foi que eu errei e o que me fez aceitar tanta coisa que eu não queria e não quero, essa história que estava apagada veio à luz na minha memória e me fez entender um pouco mais sobre mim… A Kika é chorona, a Kika é tonta, é corajosa, é… é… é… Pois é, eu sou. Mas muitas vezes eu também não sou e nem sei como ser. E tudo bem, porque somos humanos e a vida é assim…

A questão é que faz dias que eu penso em tudo e acabei descobrindo que ainda tenho raiva de mim! E não quero mais que seja assim. Estou cansada demais e já faz tempo. Cansada de relacionamentos tóxicos e vazios, de brincadeiras tontas, de ter medo e de achar que não mereço ser feliz. Cheguei à conclusão que já está mais do que na hora de parar de aceitar coisas que não quero, de dizer mais nãos e de “me permitir” relações mais saudáveis e uma vida mais feliz.

E por que estou escrevendo tudo isso? Porque muitas vezes julgamos as pessoas sem saber que cicatrizes elas carregam na alma e que dores trazem no coração. Damos nossos palpites, conselhos ou sugestões sem antes ouvir o que essa pessoa tem a dizer. Sem saber se ela quer ou não que falemos algo ou se simplesmente precisa de alguém que a escute calado. Assim que, se você puder, não julgue os outros. E crie seus filhos para serem da mesma forma. Ensine-os a respeitar e não julgar. Não tire conclusões precipitadas sobre quem “é” esta pessoa, porque você nunca a conhecerá de verdade! Nem você mesmo se conhece de verdade! É claro que, agora sim, você me conhece um pouco mais e eu também me conheço um pouco mais. Mas ainda assim, isso é muito pouco sobre realmente “conhecer”. Então, por favor, não julgue. Nem a si mesmo e nem aos outros.

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