Vacinas causam autismo? O que mostram as pesquisas mais recentes

Vacina e autismo

Um estudo dinamarquês com mais de 650 mil crianças mostrou, mais uma vez, que não há relação entre a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola e o desenvolvimento de autismo.

Isso não é novidade no meio da ciência e da saúde pública, mas em um mundo dominado por fake news e especialistas de Facebook, esse tipo de estudo é ainda de extrema importância para fazer frente ao movimento anti-vacina.

O trabalho, publicado nesta semana no “Annals of Internal Medicine”, foi conduzido por pesquisadores do Statens Serum Institut em Copenhague com crianças dinamarquesas nascidas entre 1999 e 2010. Alguns dos mesmos cientistas haviam publicado um artigo anterior sobre o assunto, no “New England Journal of Medicine”, em 2002, com base em dados de 537.303 crianças dinamarquesas nascidas entre 1991 e 1998.

Por que refazer o trabalho? Porque “a idéia de que as vacinas causam autismo ainda está por aí”, disse Anders Hviid, um dos pesquisadores envolvidos no estudo, à STAT. “E o movimento anti-vacina talvez tenha ficado mais forte nos últimos 15 anos. A tendência que estamos vendo é preocupante”, completa.

A volta do sarampo

Várias doenças que foram erradicadas graças às vacinas estão ressurgindo no mundo todo. No Brasil, que recebeu em 2016 um certificado da ONU pela eliminação do sarampo, um surto da doença atingiu 11 estados e mais de 10 mil pessoas no ano passado.

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Nos Estados Unidos, estão em curso atualmente seis surtos de sarampo, com 206 casos registrados em janeiro e fevereiro, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Esse total de dois meses é maior que o total de 2017.

Uma família francesa com crianças não vacinadas levou o vírus para a Costa Rica. Um turista que contriu o vírus em Israel provocou um surto em uma comunidade judaica ortodoxa de Nova York. O escritório regional europeu da Organização Mundial da Saúde informou que houve mais de 85 mil casos no continente e 72 mortes por sarampo
em 2018.

Um surto no estado de Washington, que infectou 71 pessoas, levou o secretário de saúde John Wiesman a pedir mais fundos ao Senado para lidar com o problema. Em seus planos, estão um aumento de 22% no financiamento para o CDC e uma campanha nacional de informação para explicar o valor das vacinas.

Para ele, é preciso garantir que “estejamos preparados adequadamente para divulgar nossa mensagem e fazer frente ao movimento anti-vacina”. Mas nem todos os médicos e pesquisadores estão certos da eficácia de mais um estudo no combate à desinformação.

Em um editorial publicado junto com o estudo, o Dr. Saad Omer, da Emory University, questiona a pertinência de se investir tempo e dinheiro em pesquisas que exploram uma questão já esgotada, em detrimento de pesquisas mais promissoras.

Ele também ressalta que a evidência não conquistou os céticos até agora. “Vivemos em um mundo ‘resistente a fatos’, em que os dados têm um valor persuasivo limitado”, disse ele. Para ele, o foco agora deve ser em estudos que deixem claro a melhor maneira de convencer os pais hesitantes de que as vacinas são seguras e atendem aos interesses de seus filhos.

“O progresso está sendo feito em descobrir como se comunicar efetivamente com esses pais, observando que eles formam um grupo maior do que os indivíduos que rejeitam categoricamente as vacinas”, afirma. “É uma área ativa de pesquisa. Mas há muitas técnicas promissoras que estão chegando online”.

De onde vem esse boato?

Em 1998, um artigo publicado no “The Lancet”, a bíblia da pesquisa médica, deu início a um dos maiores mitos da área da saúde pública. Nele, o gastroenterologista Andrew Wakefield defendia o vínculo hipotético entre a vacina tríplice viral (contra caxumba, rubéola e sarampo) e o autismo.

O estudo causou pânico e afetou as taxas de vacinação em todo mundo. Ele foi refutado em muitas ocasiões, e acusado de manipular os resultados da pesquisa —Wakefield teve de se retratar na mesma revista por erros metodológicos que alguns especialistas definiram como “premeditação de sua parte”. Chegou a perder sua licença de trabalho, mas o estrago já estava feito: o boato se mantém em nível mundial, alimentado sobretudo pelas redes sociais.

Confira o calendário de vacinação da Sociedade Brasileira de Imunização clicando aqui.

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