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Magoamos e somos magoados com frequência
Por Beatriz Herkenhoff
Vivemos tempos difíceis em que as diferenças sobre o modo de ser e de pensar e a dinâmica do mundo ficaram mais acirradas. Grupos dividem-se quanto às alternativas para: o enfrentamento da #pandemia, dos graves problemas sociais e políticos, da sobrevivência do nosso planeta, entre outros desafios.
Essas divisões atingem as relações sociais mais amplas, mas, também a convivência com os amigos e familiares. Geram rupturas nas famílias, no trabalho, na vizinhança, na Igreja e em outros espaços sociais e de lazer. Muitos param de conversar após um confronto e feridas irreversíveis são abertas.
Diante dessa realidade, a temática sobre o perdão torna-se premente e atual
Quem nunca foi ofendido, machucado, abandonado, traído e rejeitado? Quem nunca se decepcionou com um grande amor, com um familiar ou com um amigo?
Muitas são as experiências que geram dúvidas sobre a possibilidade de voltar a amar e ser amado. Eu poderia escrever um livro sobre inúmeras situações cuja cura passa pelo perdão e pelo resgate da capacidade de amar e ser amado. Mas, vou destacar apenas algumas questões que considero significativas.
Cada ser humano é único, e nas relações familiares existe a dificuldade em aceitar o outro em suas limitações e humanidade
Muitos pais amam infinitamente e querem dar o melhor de si, mas criam expectativas que não correspondem aos desejos e talentos de seus filhos. O que gera sentimentos de inferioridade e inadequação por não corresponderem aos sonhos daqueles que são a principal referência em suas vidas.
Em alguns casos, pais têm dificuldade em expressar o seu amor, reconhecimento e cuidado porque não se sentiram amados na infância. Muitos carregam mágoas e tristezas ao longo de sua trajetória de vida pela dificuldade em perdoar e pedir perdão por lembranças avassaladoras relacionadas à dependência química.
A #violência doméstica, com abusos psicológicos e físicos, também deixa traumas profundos. Em muitos casos, aqueles que foram abusados passam a ser abusadores, pois, é difícil pedir ajuda e romper com esse círculo perverso.
Pessoas são marcadas também por #atitudespreconceituosas por sua cor de pele, etnia e orientação sexual. Outros sofrem# bullying na escola, numa idade em que não sabem se defender.
As instituições, muitas vezes, fecham os olhos para a dor e o sofrimento psíquico e emocional vividos pelas crianças e adolescentes em locais em que deveriam ser protegidas e ter o seu desenvolvimento pleno garantido. Muitos sofrem com a #pobreza, a #fome, o #desemprego, com #migrações internas ou para outros países em busca de melhores condições de vida.
Quando as feridas não cicatrizam, a dor e a tristeza insistem em ficar e desestruturar
O ato de perdoar não é algo fácil, muitas vezes, parece impossível. Perdoar, pedir perdão e se auto perdoar são atitudes complexas que envolvem uma série de elementos. Acusamos, cobramos atitudes, mas, não paramos para pensar se o sujeito magoado tem mecanismos próprios para decidir se perdoa ou não.
E se a pessoa não conseguir perdoar? Será culpada por isso? O que fazer se ela não tem as ferramentas que ajudem a minorar ou eliminar o sofrimento?
Precisa ser acolhida em sua dificuldade de perdoar, ao mesmo tempo estimulada a construir recursos para superação do ressentimento. Em muitos casos torna-se necessária ajuda terapêutica e espiritual porque a falta de perdão paralisa, abre espaço para o pessimismo, o rancor, a raiva e a depressão.
O perdão liberta do passado e libera a energia emocional e mental, que nos amarra no ressentimento e na dor
O ato de perdoar tem consequências valiosas, como: paz de espírito, alegria interior, esperança, leveza e tranquilidade. Desperta o potencial para viver o presente e atingir novos objetivos, resignificando os acontecimentos com gratidão.
Muitos falam que perdoaram, mas, no primeiro desentendimento, deixam vir à tona toda raiva guardada debaixo do tapete.
#CleverFernandes (Remorso, Rancor e o Perdão, 2016) afirma que o perdão precisa passar por uma tríade que envolve: dor, luto e esquecimento. Para o autor, perdoar é uma declaração de que a injustiça sofrida será desconsiderada e esquecida; de que as ofensas serão sepultadas em covas profundas.
Mas, enquanto a lembrança do acontecimento incomodar é porque o perdão não aconteceu. É preciso viver o luto com intensidade, passando pelas diferentes etapas que o envolvem: a negação, a negociação, a raiva, a tristeza e a aceitação.
Que questões você pode acrescentar para enriquecer essa reflexão sobre o perdão?
#perdão

Beatriz Herkenhoff é doutora em serviço social pela PUC São Paulo. Professora aposentada da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). Autora do livro Por um Triz – Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia.
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6 thoughts on “A difícil arte de perdoar”
Parabéns pela crônica. Excelente reflexão.
Abraços
Sim, é verdade que perdoar é difícil. Existe até aquela frase: “perdoar eu perdoo, mas não esqueço”… Mas quando não perdoamos (nem esquecemos) o prejuízo maior é para nós mesmos. Isso nos ensina a Psicologia, a religião… Pessoalmente acho que com a idade (e a sabedoria que vem junto) foi ficando mais fácil perdoar. Trabalhando as expectativas em relação ao outro, desenvolvendo a tolerância e humildade, é possível ver o outro em sua grandeza e tambem imperfeições. Luz e sombra.
Com certeza o PERDÃO liberta e traz com ele toda paz de espírito que possamos ter. Eu penso que antes de perdoar, temos que nos conhecemos. O autoconhecimento é fundamental para a prática do perdão, também penso que se você procurar se melhorar como ser humano, não terá muito que perdoar. As vezes o que ofende muito uma pessoa, não tem tanta importância para outra. Tudo vai depender de como encaramos a situação.
A compreensão de que não somos iguais , cada um é um ser único,ajuda na questão da mágoa. Não vale a pena cultivar nada de negativo porque o maior prejudicado será “NÓS MESMOS.”
Que lindo e verdadeiro texto sobre o perdão, Beatriz!
Penso que só perdoamos verdadeiramente quando esquecemos o feito que nos ofendeu e também quando aceitamos que as pessoas são diferentes, quando paramos de nos colocar no centro, com nossas verdades, sem tentar compreender as verdades de cada um e que de fato, nem sempre sabemos o que é melhor para o outro.
Com a idade, mas nem só com a idade, eu compreendi que aceitar o outro não é chegar num ponto de consenso. Nem sempre se chega numa semelhança de ideias e muito menos de sentimentos.
Tenho 3 filhos e me lembro que uma das minhas meninas, ainda bem pequena me disse: mãe, você nem sempre sabe o que é melhor para mim! Na hora eu fiquei perplexa por ouvir aquilo de uma criança, mas fui refletir sobre o assunto e vi que ela tinha razão. Cada pessoa é única e eu às vezes tinha dúvidas até do que decidir pra mim…Teria que mudar o meu olhar e foi o que fiz: vi que eu podia abrir mão da maioria das exigências pequenas que eram causa de aborrecimentos. Comecei a olhar e tentar enxergar o potencial das pessoas e a procurar resolver logo o que era fácil para mim.
O mais dificil para mim é quando sinto mágoa de alguém muito próximo. Procuro, mas nem sempre consigo de imediato, conversar com a pessoa e dizer como me senti com aquela atitude. Importante para mim, também, é pedir perdão quando percebo que alguém ficou magoado comigo.
Beatriz, você pediu minha opinião e eu escrevi um texto enorme!
Finalizando: fui muito abençoada porque até hoje não tive que perdoar muito, sinceramente, tive que pedir mais perdão.
Gratidão Desirée Carly e Maria José por aprofundarem as questões que coloquei sobre o perdão, partilhando com intensidade e transparência a rica experiência de vocês nessa área do perdão. Vocês trouxeram elementos novos que nos ajudam aavançar no grande desafio que é perdoar e pedir perdão
Quando eu penso no perdão eu foco no perdão divino, mesmo Deus sabendo que corre o risco de ser ofendido novamente por mim, Ele decide me perdoar. E Deus assim o faz porque nos ama. Então o perdão é fruto do amor.