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A popularização dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade mudou a forma como muitas pessoas encaram o emagrecimento. Substâncias que atuam sobre o hormônio GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, passaram a fazer parte da rotina de um número crescente de pacientes — e também ganharam enorme espaço nas redes sociais.
Mas, em meio ao entusiasmo provocado pela perda de peso e pela redução do apetite, uma questão importante merece atenção: comer menos significa, necessariamente, comer melhor?
A resposta é não.
Os medicamentos podem reduzir a fome e aumentar a sensação de saciedade, fazendo com que muitas pessoas consumam quantidades significativamente menores de alimentos. Nesse cenário, a qualidade nutricional do que vai para o prato se torna ainda mais importante.
Para Vanessa Rocha, nutricionista do Mundo Verde, o foco não deve estar apenas na quantidade de comida ingerida, mas principalmente na qualidade da alimentação.
“Quando a fome diminui, existe o risco de a pessoa simplesmente reduzir muito a quantidade de comida e acreditar que isso, por si só, é suficiente para emagrecer com saúde. Mas comer menos não significa necessariamente comer melhor. Se o volume alimentar caiu, precisamos garantir que aquilo que permanece na alimentação tenha qualidade e forneça os nutrientes necessários”, explica.
A especialista destaca cinco pontos fundamentais para quem utiliza medicamentos à base de GLP-1.
1. Menos fome exige mais atenção ao prato
A redução do apetite pode levar algumas pessoas a fazer refeições muito pequenas, pular refeições ou perder o interesse por determinados alimentos.
Embora a diminuição da ingestão energética possa fazer parte do processo de emagrecimento, uma restrição excessiva pode dificultar o consumo adequado de nutrientes.
Por isso, o acompanhamento nutricional deve considerar fatores como rotina, objetivos, composição corporal, nível de atividade física e tolerância individual ao tratamento.
“Uma das principais preocupações é garantir que, mesmo comendo menos, a pessoa continue recebendo proteínas, fibras, vitaminas, minerais e líquidos em quantidade adequada. A estratégia não deve ser simplesmente reduzir o prato, mas tornar as refeições menores mais nutritivas”, afirma Vanessa.
2. Proteínas, fibras, hidratação e qualidade nutricional merecem atenção
Durante a perda de peso, preservar a massa muscular é um dos principais desafios. Por isso, a ingestão adequada de proteínas, distribuída ao longo do dia conforme as necessidades individuais, é importante e deve estar associada à prática de exercícios, especialmente os de resistência, quando indicados por profissionais.
As fibras também têm papel relevante. Frutas, verduras, legumes, sementes e farelos podem contribuir para o funcionamento intestinal e para uma alimentação mais equilibrada.
Como alguns pacientes podem apresentar alterações gastrointestinais durante o tratamento, os ajustes alimentares devem ser individualizados.
A hidratação é outro ponto essencial. Náuseas, vômitos e diarreia, quando ocorrem, podem aumentar o risco de desidratação.
Além disso, quando o volume das refeições diminui, cada escolha ganha ainda mais importância. Menos comida no prato exige, muitas vezes, mais qualidade nutricional.
3. A caneta não é uma solução mágica
Outro risco é acreditar que o medicamento, sozinho, será responsável por todo o processo de emagrecimento.
Embora os medicamentos à base de GLP-1 possam ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade, eles não substituem uma alimentação equilibrada, a prática de atividade física e mudanças sustentáveis de comportamento.
“O medicamento pode ajudar no controle da fome, mas não ensina sozinho a pessoa a se alimentar. O acompanhamento nutricional pode aproveitar esse momento de maior controle do apetite para trabalhar escolhas, rotina, qualidade da alimentação e comportamentos que possam ser mantidos no longo prazo”, destaca a nutricionista.
Esse cuidado também é importante para reduzir o risco de retomada do peso após mudanças muito restritivas ou difíceis de manter.
4. É preciso filtrar a avalanche de informações
Com a popularização das chamadas canetas emagrecedoras, também cresceu o volume de conteúdos sobre o assunto nas redes sociais.
Dietas específicas, listas de alimentos “proibidos”, estratégias para acelerar o emagrecimento e recomendações de suplementos circulam diariamente.
O problema é que o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra — e algumas orientações podem ser inadequadas.
“Estamos vivendo uma avalanche de informações sobre emagrecimento. É importante entender que não existe uma alimentação padrão para quem utiliza GLP-1. Cada pessoa tem necessidades, objetivos, rotina, composição corporal e tolerância diferentes. Por isso, a orientação individualizada é tão importante”, ressalta Vanessa.
5. O objetivo vai muito além do número na balança
A discussão sobre emagrecimento não deveria se resumir apenas aos quilos perdidos.
A perda de peso pode ser uma parte importante do tratamento, mas outros fatores também precisam ser considerados, como a qualidade da alimentação, a preservação da massa muscular, a hidratação e a construção de hábitos que possam ser mantidos ao longo do tempo.
“Emagrecer pode ser o começo de uma mudança, e não o ponto final. O mais importante é que o paciente consiga construir uma forma de se alimentar e cuidar da saúde que faça sentido para a sua vida e que possa ser mantida no futuro. O medicamento é uma das estratégias de tratamento, mas os hábitos construídos ao longo do acompanhamento são fundamentais”, conclui.
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