A troca da dívida financeira por uma dívida humana

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Insegurança, sobrecarga e medo de demissões: como a crise financeira pode afetar a saúde emocional de trabalhadores, empresários e lideranças

Os recentes casos de grandes empresas brasileiras em recuperação judicial colocam em evidência não apenas os impactos financeiros das crises, mas também suas consequências sobre a saúde emocional. Para o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista em saúde mental relacionada ao trabalho, uma recuperação empresarial pode desencadear uma espécie de crise psicológica paralela, afetando tanto os funcionários que permanecem na organização quanto empresários e líderes responsáveis pelas decisões.

“Quando se fala em uma empresa em dificuldade, os funcionários que ficam continuam trabalhando sabendo que, a qualquer momento, também podem ser atingidos, já que a demissão é um acontecimento concreto. Existe uma data, uma ruptura e, depois dela, um processo de adaptação e busca por novos caminhos. A insegurança sobre o emprego funciona de maneira diferente porque pode se prolongar durante semanas ou meses”, explica o médico.

Segundo o psiquiatra, essa incerteza constante pode fazer com que o cérebro interprete pequenos acontecimentos como possíveis sinais de ameaça. “É uma emergência que nunca acontece completamente, mas também nunca termina”, afirma.

Quando a crise chega ao corpo

Empresários e executivos submetidos a dificuldades financeiras prolongadas também podem apresentar sinais de sofrimento emocional, como insônia, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e sintomas físicos relacionados ao estresse.

“É o empresário que acorda às três da manhã pensando no banco, no fornecedor, na folha de pagamento, na dívida e nas pessoas que dependem daquela empresa. Muitas vezes ele já investigou palpitação ou dor no peito e continua tendo enorme dificuldade de reconhecer que emocionalmente chegou ao limite”, relata Dr. Daniel.

Para quem está no comando, existe ainda uma dificuldade adicional: demonstrar vulnerabilidade pode ser percebido como um risco.

Enquanto o funcionário pode conversar com colegas sobre seus medos, o empresário pode evitar revelar sua insegurança a funcionários, fornecedores, clientes ou credores por receio de que isso seja interpretado como sinal de agravamento da situação financeira.

“Quem ocupa a cadeira de decisão muitas vezes acredita que não pode demonstrar medo. Só que silêncio não significa ausência de sofrimento”, afirma.

Um estudo conduzido por Michael Freeman e colaboradores também identificou elevada prevalência de condições relacionadas à saúde mental entre empreendedores avaliados, evidenciando as pressões específicas enfrentadas por esse grupo.

Além da preocupação com a própria sobrevivência da empresa, existe ainda o peso emocional das decisões que envolvem outras pessoas.

“Um empresário não demite apenas um número de uma planilha. Muitas vezes ele conhece aquela pessoa há dez, quinze ou vinte anos, conhece a família, sabe que ela tem filhos ou compromissos financeiros. Quem toma a decisão também pode carregar emocionalmente suas consequências”, destaca o especialista.

A mesma crise, vista de duas cadeiras

Para Dr. Daniel, é um erro imaginar que funcionários e empresários vivem experiências necessariamente opostas durante uma crise.

“É a mesma crise vista de duas cadeiras diferentes. O funcionário pode ficar em silêncio porque teme que reclamar faça seu nome aparecer numa próxima lista. O empresário pode se calar porque teme que admitir que está no limite seja interpretado como fraqueza. Assim, uma organização inteira pode atravessar uma crise psicológica praticamente sem falar sobre ela.”

A discussão ganha ainda mais importância diante das mudanças relacionadas à NR-1, que ampliaram a atenção sobre os fatores de risco psicossociais no ambiente de trabalho.

Durante períodos de reestruturação, aspectos como sobrecarga, pressão excessiva, conflitos, falta de clareza sobre o futuro e insegurança profissional podem se intensificar.

O especialista, porém, faz uma ressalva: cuidar da saúde mental não resolve a insolvência de uma empresa.

“Psicólogo não paga fornecedor, psiquiatra não renegocia dívida e programa de bem-estar não substitui fluxo de caixa. A questão é impedir que uma crise financeira produza, paralelamente, uma crise humana ainda maior.”

Comunicação pode reduzir a ansiedade

Em momentos de incerteza, a comunicação interna pode desempenhar um papel importante na redução da ansiedade. Quando faltam informações, rumores e suposições tendem a ocupar esse espaço.

“A mente humana não gosta de lacunas. Quando faltam informações, ela tende a preencher esses espaços com hipóteses — e frequentemente com as piores. Por isso, comunicar aquilo que efetivamente se sabe e reconhecer aquilo que ainda não está definido pode ser muito mais saudável do que simplesmente repetir que ‘vai ficar tudo bem’”, explica Dr. Daniel.

Também é importante preparar as lideranças para períodos prolongados de pressão e criar canais seguros para que os trabalhadores possam relatar situações de sobrecarga ou sofrimento sem medo de represálias.

Para empresários e executivos, a recomendação é igualmente importante: não atravessar a crise sozinho.

“Quem está na cadeira do dono precisa ter pelo menos um espaço onde possa admitir que está cansado, preocupado ou com medo sem imaginar que isso colocará a empresa em risco. Pode ser acompanhamento profissional ou uma rede de confiança. Sustentar durante meses a imagem de que está tudo sob controle também cobra um preço”, afirma.

Para o psiquiatra, a própria lógica da recuperação judicial pode servir como metáfora para a saúde mental.

“A legislação parte do princípio de que, em determinadas circunstâncias, uma empresa em dificuldade pode valer mais recuperada do que simplesmente liquidada. Precisamos aplicar uma lógica semelhante às pessoas que estão dentro dela.”

E deixa um alerta:

“Uma empresa pode sair da recuperação judicial com dívidas renegociadas e continuar carregando funcionários exaustos, lideranças adoecidas, confiança destruída e um empresário que não dorme há meses. Nesse caso, ela não se recuperou completamente. Apenas trocou uma dívida financeira por uma dívida humana.”

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