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A mulher saiu de casa e o teto veio abaixo

Por Alcir Santos
Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres,
agressivo ou desdenhoso
do que o homem que duvida de sua virilidade
Simone de Beauvoir
A mulher saiu de casa e o teto veio abaixo. Não tinha mais o esteio que a sustentava.
Chegamos aos novos tempos. Os filhos são postos no mundo, mas quem os educa não são os pais.
Ocorre que escolas nunca foram centros de educação; no máximo, no caso das religiosas, complementavam as regras e os princípios que vinham de casa. Nada demais, afinal, a finalidade da escola é informar e socializar. Educar é função intransferível da família ou, em última análise, da mulher-mãe.
Fora de casa, disputando espaços com os homens no mercado de trabalho, na busca de afirmação e respeito, as mulheres que não abriram mão do múnus de ser mães, educadoras dos filhos, tiveram – e têm – que se desdobrar e se submeter a três e até quatro turnos de trabalho. Conseguiam – e conseguem –, sabe-se lá como, tempo para levar e apanhar filhos na escola, acompanhá-los nas atividades escolares e, sobretudo, cuidar de educá-los.
Grosso modo, poder-se-ia encontrar três situações, nenhuma delas fácil:
a) mulheres que querem ser mães e arcam com o ônus dessa decisão;
b) as que não querem ser mães e têm de suportar a pressão social de quem vive cobrando filhos dos outros;
c) as que são mães apenas para mostrar para a sociedade sua fertilidade e a do consorte. Estas simplesmente lavam as mãos e os filhos acabam educados pelas empregadas.
Quando vão a algum lugar público, simplesmente ligam os aparelhinhos eletrônicos e deixam as crianças anestesiadas. Daí podem resultar jovens mal-educados, grosseiros, cheios de razão, e totalmente despreparados para a vida. Alguns, por falta de pais, terminam adotados pelo traficante da esquina.
Outro aspecto da questão é que a mulher passou a ter filhos cada vez mais tarde. Primeiro, é preciso ocupar o espaço no mercado de trabalho; depois, fazer cursos de aperfeiçoamento, progressão no trabalho, etc. Afinal, nada é fácil.
Somente em terceiro plano é que está a maternidade. Mas aí, a mulher já entrou na casa dos quarenta, com a vida estabilizada, tempo de aproveitar o resultado de tanto esforço e dedicação. É o tempo das viagens, dos fins de semana nas praias ou no campo, enfim, as tentações são muitas e tomar a decisão de engravidar, parir e criar um filho não é fácil.
O tempo é outro. Maternidade já não é o único apanágio da mulher. Sem dúvida, uma questão complicada e que se agrava na medida em que muita gente ainda acredita que ter filhos é a forma de não acabar na solidão.
Chegamos, então, ao grande número de mulheres sozinhas. Aí, parece, há um conjunto de fatores.
- Primeiro, temos o fato, estatisticamente comprovado, de que existem mais mulheres que homens. Aqui, um dado curioso: nascem mais homens que mulheres, mas eles morrem bem mais cedo.
- Segundo, as mulheres vivem, em média, seis anos mais que os homens.
- Terceiro, as atuais gerações estão ficando muito intolerantes. Não transigem, não aceitam fazer concessões. Os casamentos duram pouco.
Surge também outro fenômeno: as famílias compostas por pessoas que trazem, de ambos os lados, verdadeiras tribos, filhos oriundos dos vários casamentos anteriores. Isto é delicado.
Sabemos que a vida a dois, e até no campo profissional, depende de uma troca permanente de concessões. Se cada um não ceder um pouco, as coisas não se ajustam. E como não se sustenta uma relação em que um manda e outro obedece, as relações não se firmam.
Para concluir, outro fator pouco observado sobre essa geração feminina, mas bem interessante. Casamento, em sentido lato, tem como um dos seus alicerces a cumplicidade, que surge com o difícil exercício de viver juntos, dividir espaços e, sim, fazer e receber concessões.
As pessoas ficam com medo de se juntar a alguém de faixas etárias mais altas, especialmente quando vêm de outras relações. Pior ainda, quando o casamento anterior foi longevo.
Fato é que cada pessoa traz consigo uma enorme bagagem de manias e hábitos. Isto, embora possa não parecer, faz uma grande diferença. Com vinte, trinta anos de idade, ainda é possível ceder; com cinqüenta, sessenta, é muito mais difícil. Talvez por isso, homens maduros que ficam sozinhos preferem mulheres bem mais jovens.
A teoria dominante é que estão buscando nelas a juventude perdida. Mas também é possível que busquem nas jovens evitar a dificuldade de se ajustar a mulheres formadas, donas do seu nariz, também cheias de manias e hábitos.
Uma última observação: hoje já não há que se falar em mantenedor. Com a queda dos salários médios, muitos homens já não conseguem sustentar famílias sozinhos, fato que realça a importância da mulher que trabalha fora na composição da renda familiar. Ainda assim, elas continuam sendo desvalorizadas por seus parceiros que, em última análise, tem medo e inveja dos êxitos por elas alcançados.
Fica a pergunta: vale a pena formar uma família nesses termos?
Confesso que não programei, não pretendia e nem queria envelhecer, ou amadurecer, só. Sempre pensei em ter uma boa companhia para partilhar a parte boa da vida, já que agora tenho filhos crescidos e independentes e vida profissional bem corrida, mas já definida. Seria hora de abraço e ombro, pé com pé na hora de dormir, o carinho e o aconchego que a cumplicidade trás. Mas o tempo vai passando e nada acontece.
De uma mulher trabalhadora

Alcir Santos é aposentado e leitor compulsivo. Coisa ele diz: “ex um bocado de coisa”, de office-boy, bancário, professor de História e Direito Civil e Prática Forente a juiz. Colunista da Revista Nova Família
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3 thoughts on “As mulheres da geração do meio 3”
Os temas: Emancipação feminha, ascenção funcional, empoderamento e família, geram efeito colateral social existencial e cultural. Um bocado delicado e o tempo ainda nos dará respostas impactantes e surpreendentes… Matéria imperdível. Parabéns e parabéns Dr. Alcir Santos.
Parabéns Dr. Alcir!
Como sempre suas materias são excelente. Realmente essa materia citada passa a dificultar determinados relacionamentos por vários motivos do nosso dia a dia por questões familiares que muitas vezes nos inpedem. Mais feliz daquele ou daquela que se consegue sobreviver sozinho ou sozinha em paz com a vida, dedicando suas vidas apenas com familiares e amigos. Isso passa a ser um passa tempo muito importante para que não venha a dá depressão. Um forte abraço meu querido amigo.
Olá tudo bem? Espero que sim 🙂
Adorei seu artigo,muito bom mesmo!
Abraços e continue assim.