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Memes absurdos, personagens criados por inteligência artificial e conteúdos que prendem a atenção por segundos conquistam crianças e adolescentes. Especialistas investigam a relação entre o consumo excessivo de vídeos curtos, a concentração e o bem-estar emocional.
Um tubarão de tênis, personagens que parecem ter saído de um sonho surreal e frases sem sentido repetidas milhares de vezes. Para muitos adultos, esses conteúdos parecem incompreensíveis. Para crianças e adolescentes, porém, podem representar uma das formas mais populares de entretenimento nas redes sociais. É nesse universo que ganha força o fenômeno conhecido como brainrot.
A expressão inglesa pode ser traduzida literalmente como “podridão cerebral”. No ambiente digital, é utilizada para descrever conteúdos considerados absurdos, repetitivos ou pouco estimulantes intelectualmente, além da sensação de cansaço mental que algumas pessoas relatam após consumir esse material por longos períodos.
O termo ganhou tanta popularidade que foi escolhido pela Oxford University Press como a palavra do ano de 2024. Segundo a instituição, o uso da expressão aumentou 230% entre 2023 e 2024, refletindo a preocupação crescente com o consumo excessivo de conteúdos superficiais na internet.
Apesar do nome alarmante, é importante esclarecer que brainrot não é um diagnóstico médico e não significa que o cérebro esteja literalmente apodrecendo. A expressão funciona como uma crítica cultural aos hábitos digitais contemporâneos e às consequências percebidas do uso excessivo das redes sociais.
Uma linguagem que nasceu na internet
O fenômeno está associado principalmente a plataformas que oferecem vídeos curtos e reprodução contínua de conteúdo, como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts.
Nesse ambiente, personagens surreais, montagens aceleradas, sons repetitivos e situações sem lógica aparente tornam-se virais. Entre os exemplos estão os chamados memes Italian brainrot, que combinam imagens extravagantes, nomes inventados e vozes geradas ou modificadas digitalmente.
Um dos elementos que explicam sua popularidade é a capacidade de provocar reações rápidas. O humor absurdo surpreende, quebra expectativas e favorece o compartilhamento entre amigos. A repetição de personagens e bordões também cria uma espécie de linguagem própria, reconhecida por integrantes de determinadas comunidades digitais.
Para crianças e adolescentes, compreender essas referências pode representar uma forma de pertencimento social. Repetir uma expressão viral ou conhecer o meme do momento é, muitas vezes, uma maneira de participar das conversas com colegas.
O problema não está necessariamente em assistir a um vídeo engraçado ou participar de uma tendência. A preocupação surge quando o consumo se torna excessivo, interfere na rotina ou passa a ocupar o lugar de atividades importantes para o desenvolvimento.
O que acontece com a atenção?
A popularização dos vídeos curtos levantou uma questão importante: o consumo frequente de conteúdos rápidos pode dificultar a concentração em atividades que exigem mais tempo e esforço?
Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Psychological Bulletin, que reuniu 71 estudos e dados de 98.299 participantes, encontrou associações entre maior uso de vídeos curtos e resultados menos favoráveis em medidas de cognição e saúde mental. Entre os aspectos analisados estavam a atenção, o controle inibitório, o estresse e a ansiedade.
Esses resultados merecem atenção, mas precisam ser interpretados com cautela. Uma associação não comprova, por si só, que os vídeos sejam a causa direta das dificuldades observadas. Outros fatores, como qualidade do sono, condições emocionais, ambiente familiar e hábitos de estudo, também podem influenciar esses resultados.
O formato dos vídeos curtos oferece estímulos frequentes e mudanças rápidas de assunto. Já atividades como ler um livro, estudar para uma prova ou desenvolver um trabalho escolar exigem continuidade, elaboração de ideias e tolerância a momentos de menor estímulo.
Quando o entretenimento digital ocupa muitas horas do dia, pode reduzir o tempo disponível para essas experiências. Por isso, a discussão não deve se limitar à duração de cada vídeo, mas considerar o conjunto dos hábitos e o equilíbrio entre as atividades.
Crianças e adolescentes: por que o tema merece atenção?
A infância e a adolescência são etapas importantes para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, experiências como brincar, conversar, ler, praticar esportes e resolver problemas contribuem para a aprendizagem e a autonomia.
O consumo excessivo de conteúdos digitais pode se tornar preocupante quando substitui essas oportunidades, prejudica o sono, dificulta o cumprimento das responsabilidades ou provoca conflitos frequentes em casa.
Outro aspecto é a dificuldade de interromper a navegação. A reprodução automática, a rolagem infinita e as recomendações personalizadas facilitam a passagem de um conteúdo para outro. Muitas vezes, a pessoa começa a assistir a um vídeo por alguns minutos e permanece conectada muito mais tempo do que pretendia.
Isso não significa que todas as crianças que assistem a vídeos curtos desenvolverão problemas de atenção ou dependência. A idade, a frequência de uso, o conteúdo consumido, o contexto e as características individuais fazem diferença.
Mais importante do que rotular uma criança como “viciada em celular” é observar mudanças concretas em seu comportamento e compreender o que está acontecendo em sua rotina.
O papel das famílias na construção de hábitos digitais saudáveis
Diante desse cenário, proibir toda forma de entretenimento digital nem sempre é a estratégia mais eficaz. O caminho pode começar com diálogo, limites consistentes e participação ativa dos responsáveis.
Algumas medidas ajudam a construir uma relação mais equilibrada com a tecnologia:
1. Estabelecer combinados claros: definir horários e situações em que o uso do celular é permitido, respeitando a idade e as necessidades da criança.
2. Proteger o sono: evitar o uso de telas próximo à hora de dormir e manter os dispositivos fora do quarto durante a noite, quando possível.
3. Incentivar atividades variadas: oferecer oportunidades de leitura, brincadeiras, esportes, passeios, jogos de tabuleiro e convivência presencial.
4. Conversar sobre o conteúdo: perguntar quais vídeos a criança acompanha, o que considera engraçado e por que determinado meme se tornou popular. O objetivo é estimular a reflexão, e não ridicularizar seus interesses.
5. Dar o exemplo: os adultos também precisam observar seus próprios hábitos. É difícil estabelecer limites para os filhos quando o celular ocupa constantemente a atenção dos responsáveis.
6. Utilizar recursos de controle: ferramentas de supervisão familiar, limites de tempo e configurações de segurança podem ajudar, desde que acompanhadas de orientação e diálogo.
O objetivo não é afastar crianças e adolescentes da cultura digital, mas ajudá-los a desenvolver autonomia para fazer escolhas conscientes.
A escola também tem um papel importante
A educação para o uso responsável da internet pode integrar as práticas escolares. Professores e equipes pedagógicas têm a oportunidade de trabalhar leitura crítica, interpretação de informações, identificação de conteúdos manipulados e compreensão dos mecanismos de viralização.
Os memes, inclusive, podem ser utilizados como ponto de partida para atividades de linguagem, comunicação, criatividade e análise cultural. Um conteúdo aparentemente sem sentido pode despertar perguntas sobre humor, edição de imagens, inteligência artificial, influência dos grupos e funcionamento das plataformas.
O desafio é transformar o contato com a cultura digital em uma oportunidade de aprendizagem, sem ignorar seus riscos.
Também é importante que a escola observe dificuldades persistentes de concentração, alterações de comportamento e prejuízos acadêmicos sem atribuí-los automaticamente ao uso das telas. Quando necessário, a família pode buscar orientação de profissionais qualificados.
Entre o entretenimento e o excesso
A cultura brainrot revela uma característica da vida contemporânea: a disputa constante pela atenção. Em meio a notificações, vídeos, mensagens e recomendações personalizadas, reservar tempo para atividades mais lentas tornou-se um desafio para pessoas de diferentes idades.
O debate não precisa transformar a tecnologia em vilã. Os ambientes digitais também oferecem informação, aprendizagem, criatividade, comunicação e oportunidades de expressão. O ponto central é compreender quando o uso deixa de ser uma escolha consciente e começa a interferir no bem-estar.
Para as famílias, a reflexão é especialmente relevante. Mais do que perguntar quanto tempo os filhos passam diante das telas, vale observar o que deixam de fazer, como se sentem depois de utilizá-las e se conseguem interromper o consumo sem sofrimento significativo.
A tecnologia faz parte da realidade das novas gerações. Prepará-las para esse mundo exige mais do que restrições: requer diálogo, orientação, exemplo e desenvolvimento do pensamento crítico.
Afinal, em uma sociedade que disputa cada segundo da nossa atenção, aprender a fazer pausas, refletir e escolher o que merece nosso tempo pode ser uma das habilidades mais importantes da educação contemporânea.
PARA REFLETIR EM FAMÍLIA
- O uso do celular está interferindo no sono, nos estudos ou na convivência?
- Crianças e adolescentes conseguem interromper os vídeos para realizar outras atividades?
- A família reserva momentos de lazer sem telas?
- Os adultos demonstram os mesmos hábitos digitais que esperam dos filhos?
Pequenas mudanças na rotina podem abrir espaço para mais diálogo, descanso, criatividade e convivência.
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