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A tecnologia aproxima, facilita e informa, mas o excesso de notificações e a dificuldade de desconectar podem afetar o sono, a concentração e os relacionamentos. Especialistas alertam: o desafio não é abandonar o mundo digital, mas recuperar o equilíbrio.
Uma mensagem antes de dormir. Outra ao acordar. E muitas durante o dia.
O celular está presente em praticamente todos os momentos: na mesa do café, no trabalho, durante as conversas, nas refeições e até nos últimos minutos antes de dormir. A tecnologia tornou-se uma extensão da rotina, mas uma pergunta começa a ganhar importância: estamos realmente aproveitando a conexão ou nos tornando reféns dela?
No Brasil, a internet faz parte da vida da maioria da população. Dados do IBGE mostram que, em 2024, 93,6% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet. O cenário revela o quanto a conectividade se tornou essencial para estudar, trabalhar, consumir, se informar e manter contato com outras pessoas.
Entretanto, estar conectado o tempo todo não significa necessariamente estar mais presente na própria vida.
Quando a conexão começa a pesar
A psicóloga e pesquisadora Anna Lúcia Spear King, professora do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ), estuda a relação entre tecnologia, comportamento e saúde mental.
Em artigo publicado no The Conversation Brasil, a especialista aborda a fronteira entre o uso excessivo e a dependência digital, destacando que o problema não pode ser definido apenas pelo número de horas diante das telas. É necessário observar os impactos sobre o cotidiano, o funcionamento emocional e as relações pessoais.
Essa distinção é importante: utilizar muito o celular por necessidade profissional ou para manter contato com familiares não significa, automaticamente, desenvolver dependência. O sinal de alerta aparece quando a pessoa perde o controle sobre o uso ou quando a conexão começa a prejudicar atividades importantes.
O sono também sente os efeitos das telas
Aquela olhadinha rápida nas redes sociais antes de dormir pode se transformar em uma sequência interminável de vídeos, mensagens e notícias.
O psicólogo André Vasconcellos, entrevistado pela Agência de Jornalismo da PUC-SP (AGEMT), chama atenção para os impactos do uso excessivo do celular sobre o sono, a concentração, a saúde mental e as relações sociais.
O hábito de permanecer conectado até tarde pode atrasar o horário de dormir e dificultar uma rotina de descanso adequada. Além disso, notificações e conteúdos estimulantes podem manter a atenção ativa quando o organismo deveria começar a desacelerar.
O celular está na conversa — mesmo quando ninguém fala com ele
Quem nunca interrompeu uma conversa para responder a uma mensagem? Ou percebeu que todos estavam juntos, mas cada pessoa olhando para a própria tela?
Esse comportamento, muitas vezes naturalizado, pode reduzir a qualidade das interações presenciais. A convivência exige atenção, escuta e disponibilidade emocional — elementos que ficam comprometidos quando as notificações disputam constantemente o nosso interesse.
A tecnologia permite conversar com alguém que está distante, mas também pode nos afastar de quem está sentado ao nosso lado.
Desconectar não significa desaparecer
A proposta não é abandonar o celular, excluir todas as redes sociais ou viver desconectado. A tecnologia é uma ferramenta importante e pode ampliar oportunidades, facilitar tarefas e fortalecer vínculos.
O caminho está no uso consciente: reconhecer quando a conexão é útil e quando se tornou automática.
Pequenas mudanças podem ajudar:
- Desativar notificações que não são essenciais.
- Evitar o celular durante refeições e conversas importantes.
- Estabelecer um horário para encerrar o uso das telas à noite.
- Criar momentos de lazer sem dispositivos digitais.
- Fazer pausas durante o trabalho conectado.
- Observar como você se sente depois de passar muito tempo nas redes.
- Reservar tempo para atividades presenciais, caminhadas e encontros.
Mais presença, menos piloto automático
Talvez a pergunta mais importante não seja quantas horas passamos conectados, mas o que deixamos de viver enquanto estamos diante da tela.
Uma conversa sem interrupções, uma refeição tranquila, uma brincadeira com os filhos ou simplesmente alguns minutos de silêncio podem parecer experiências pequenas. Mas são justamente esses momentos que ajudam a construir presença e qualidade de vida.
A tecnologia veio para ficar. O desafio é garantir que ela continue sendo nossa aliada — e não a protagonista de todos os nossos dias.
Estar online é uma possibilidade. Estar presente é uma escolha.

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